Entrevista 
AO: Estrear na literatura com um prêmio importante como o PAC que significado teve para você?
MM: Sem dúvida é um reconhecimento. Mas principalmente me alerta o quanto não devo me iludir com a distinção. Porque o início não aconteceu com o prêmio e o fim eu deixo aos póstumos.
AO: Qual é o grande tema do poeta e da poesia?
MM: Depois do século XX não é mais possível falar de um tema específico na poesia. Mas se a vida, uma vez indicada, é Arte, eu diria então que a poesia fala das dúvidas e dos absurdos da existência.

68 pp. - R$25,00
ISBN 978-85-295-0068-3
Código de barras: 9 788529 500683
Edição da capa: Antônio do Amaral Rocha
Ilustração: Marcelo Maccaferri
AO: Como e quando você se deparou com a necessidade de fazer poesia?
MM: Não faço poesia, mas me utilizo das palavras como matéria-prima para Arte. Eliminemos de uma vez por todas as categorias e as classificações, que generalizam a matéria e encobre suas nuances e sua atualidade. No livro “Alma, Gesto” solicitei propositalmente ao editor a declaração “Palavras e Ilustrações do autor”.
AO: Que poetas são de fundamental importância para sua formação de leitor e escritor de poesia?
MM: Seriam muitos na filosofia, na literatura, nas artes plásticas e na vida.
Catalogando alguns: Nietsche, Kierkegaard, Deleuze, Camus, Merleau-Ponty, Bérgson, Heráclito, Clarice Lispector, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Ferreira Gullar, Hilda Hilst, Virginia Wolf, Henry Miller, Raduam Nassar, o sempre Drummond, Pessoa, Cabral, TS Eliot, Rilke. Algumas visitas ao poeta francês René Char (muito importante) e aos italianos Eugenio Montale e Cesare Pavese. E ainda aprendo com Emily Dickinson e Hart Crane etc. Com certeza estou esquecendo um monte.
Acrescentaria alguns nomes a esta lista: como os performers Mi Rodrigues e Diogo Bo, como os filósofos Rodrigo Meneses, Peter Per Pearl, Luís Felipe Ponde, Tomás Troster, Walther Von Der Vogelweide e Vitor Mônaco Loureiro, a crítica de dança Helena Katz, o escritor Marcelo Coelho, os poetas Gabriel Kolyniak e Antero Kalik, o compositor e estudioso de música contemporânea Felipe Ribeiro, o pensador-multimídia Guilherme do Vale (Gli Altri) entre muitos.
AO: Se você fosse definir sua poesia, que definição que daria para ela?
MM: Aquela que não sabe quem e o quê é, mas que por alguma razão acredita, ou seja, é MOVIMENTO.
A língua dança (é corpo) no palco vazio da boca. Seu hálito são trechos nunca visitados. Sua forma é a inexistência, é a palavra.
AO: Você tem também uma militância nas artes plásticas. Qual a relação que faz entre poesia e artes plásticas?
MM: Não milito e não sirvo a causas, simplesmente descubro (-me) Arte! Aprecio a idéia de uma fronteira móvel entre as linguagens, ora tocando-se ora se (con)sumindo mutuamente. É justamente neste espaço que minha poesia flutua, dissolve: nas fronteiras. São nas fronteiras que ocorre o desequilíbrio, e isto me surpreende, pois lá a Poesia é viva.
Gosto de uma frase de Merleau-Ponty que diz: “não é o escultor que esculpe a escultura, é a escultura que esculpe o escultor.”
Ou seja, a matéria (de)forma o artista, o artista, no caso, a própria matéria.
AO: E entre poesia e filosofia?
MM: São maneiras (procedimentos, impossibilidades) diferentes de investigar. Considero, por exemplo, Drummond o maior filósofo que o Brasil já teve. Mas tanto poesia como filosofia são inúteis: é ai que se encontra a fascinação: a busca de um desespero.
AO: Qual recepção você espera ter com a sua poesia?
MM: Esperamos sempre ser bem-vindos. Mas se não somos: muito obrigado, passe bem e até a próxima; bato noutra porta.
AO: Sabemos que os movimentos poéticos da atualidade se dão entre grupos, os chamados “guetos”. Você participa de algum deles? O que você acha desses grupos?
MM: Não chamaria de guetos ou cercas de arame farpado. Existem pessoas que gostam de alguma coisa, outras que não gostam e ainda outras que transitam entre gostar e não gostar, é tudo uma questão de abrangência e/ou distância da “coisa” procurada. No entanto, vejo cada vez mais artistas buscando uma interação maior entre seus pares, entre suas contradições e o público, com o propósito de aprofundar, expandir suas pesquisas e deslocar questões. Sem contar que hoje há muita burocracia na promoção e incentivo da Arte e a união de forças e criatividade ajuda muito a superá-la.
AO: E finalmente, qual a função da poesia e do fazer poético hoje em dia?
MM: Nenhuma. A poesia não tem funcionalidade alguma, como a Arte em si também não tem. A única coisa que ela se propõe é revelar (e esconder) sua existência, e faz isso quando se realiza ou se perde. A Arte É.
(Entrevista a Antônio do Amaral Rocha)
Sobre
o autor
Marcelo Maccaferri é poeta, escritor, artista plástico e performer.
Nasceu e reside na cidade de São Paulo. Cursou filosofia na PUC-SP.
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Quarta capa 
<Assim o autor se define e se expressa:
Há nestas palavras o que cultuo:
1. Imobilizar o gesto antes que a luz o faça
2. Imobilizar a luz
3. Imobilizar o antes
4. Tocar a imobilidade com o extremo das mãos, mutiladas
5.
6. Repetir tudo até provar minha incapacidade
7. Apagar a luz do quarto
Alguns Poemas 
Minha alma tem carne e osso, cepa e acordoamento,
É divisível e por isso possui influências,
Tem sangue e é insolúvel ao que é humano.
As roupas se acumulam no inominável,
Conheço estórias de homens que viveram nus
E de outros que perderam em brechós o nome.
Como pousar em uma folha sem perturbar toda fronde,
É a contribuição que os insetos dão aos conceitos.
Habito o vácuo como um exercício de desprendimento,
É quando se retira o ar que se respira o perplexo das coisas.
Descobri em um dicionário de desarranjos que não existe ser,
Existem nomes. Alguns são incertos e outros ainda inabitados.
São as camadas dos meus olhos que eu raspo
Toda vez que eu vejo a palavra mesmo
(Mesmo depois de desembaçar o mesmo)
Sou desprevenido ante ao golpe de um sorriso,
Ou quando masco chamas e fico sobre o efeito.
*
Onde estamos?
No oculto de quem nos lê,
Na página que foi arrancada
(E que eu neguei ao poema)
No íntimo das coordenadas,
No lugar do outro,
No interstício das portas,
No recolher dos ossos,
No encarcerar dos hóspedes,
No outro,
No invisível do ato,
No final das frases,
No et cetera,
Na imensidão dos mortos,
Na rebelião da carne,
Na amnésia do nome,
Na exaustão das horas,
No ponto
Ilustrações 
Mercado a que se destina 
Este livro se destina aos seguintes cursos:
Literatura
Teoria Literária
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