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Everaldo Augusto
Literatura e Documento
Cascalho, objeto do estudo, se tornou um clássico da literatura brasileira porque traz para a literatura a vida de garimpeiros, jagunços e coronéis de um território conflagrado deste Sertão-Brasil...
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Lançamento em Destaque
Cascalho, objeto do estudo, se tornou um clássico
da literatura brasileira porque traz para a literatura a vida de garimpeiros, jagunços e coronéis de um território conflado deste Sertão-Brasil e narra com maestria a realidade de uma região que pode ser considerada campo fértil dos mitos das culturas baiana e brasileira.
Alfa-Omega: A obra Cascalho procura retratar, com base em fatos históricos e documentais, a realidade do que ocorreu na cidade baiana de Andaraí, na primeira metade do século XX. Como o senhor avalia essa preocupação com a verdade histórica diante da difusão dos mitos de fora?.
Everaldo Augusto: Eu diria que Herberto Sales, em Cascalho, não retratou apenas uma realidade. Em se tratando de uma obra de ficção, eu poderia dizer que ele recriou esta realidade.
O que surpreende a todos que lêem a obra é a força, as cores, e a emoção em que se dá este ato de recriação. Isto faz desta obra literária uma denúncia da degradação social e da banalização da vida daquela multidão de garimpeiros perdida nos sertões da Bahia, com muito mais força que qualquer obra dita histórica, tão somente, ou qualquer discurso diretamente engajado.
AO: Em que medida o retrato fiel de uma realidade histórica colabora com a produção de uma obra literária? E em que ela atrapalha?
Everaldo Augusto: Penso que em literatura de ficção não há um retrato fiel da realidade. Eu diria que a Literatura rapta, captura a realidade e a recria pela palavra. Depois a devolve com mais vida ainda que a realidade antes capturada, posto que agora ela está desnaturalizada, perceptível ao olhar e aos sentimentos do homem.
AO: Os relatos históricos das viagens feitas por Spix e Martius, Teodoro Sampaio e Anita Leocádia Prestes ajudaram a compreender a realidade da Chapada Diamantina, mas não contribuíram com a desconstrução dos mitos; como uma obra de "ficção de identidade" alcançou esse feito?
Everaldo Augusto: Os discursos históricos e sociológicos têm como objeto a descrição dos mitos ou a sua explicação, penso eu. Os mitos são desconstruídos em um determinado contexto pela própria experiência de vida dos homens.
A Literatura tira os mitos do terreno do sagrado e resignifica-os, na medida em que os situa no terreno da linguagem, mostrando-os como uma narrativa dos fatos vistos por dentro, eu diria.
Literatura e Documento - Histórias e Mitos na primeira narrativa de Herberto Sales
152 pp. - R$ 39,00
Edição Ilustrada
Capa de Antônio do Amaral Rocha
ISBN: 978-85-295-0063-8
Código de barras: 9 788529 500638
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AO: Em que medida a convivência do escritor Herberto Sales com os usos e costumes da Chapada Diamantina contribuíram para a produção da obra Cascalho?
Everaldo Augusto: Contribuiu por inteiro, haja vista que este romance também pode ser lido como uma registro da memória do autor, assim como outras obras de Herberto Sales.
AO: A "civilização do garimpo", que Herberto Sales viu, não estava comprometida pelo fim da atividade garimpeira?
Everaldo Augusto: Pode ser. Contudo, não há um determinismo econômico agindo sobre a cultura. Um determinado contexto econômico pode se alterar sem que isso signifique o desaparecimento de uma cultura preexistente. Os mitos e as histórias do garimpo sempre estiveram lá, embora durante muito tempo esta cultura tenha sido silenciada em razão da decadência econômica.
AO: Através de um "saque ao real" Herberto Sales construiu uma obra de ficção que eternizou a história do garimpo na Chapada Diamantina.
Qual é a importância de se recorrer aos documentos históricos para produzir uma obra literária?
Everaldo Augusto: Não imagino que Cascalho seja um romance histórico, nos termos em que se convencionou chamar o romance feito com base em pesquisas, documentos e registros, que são ficcionalizados posteriormente.
Em si ele é um documento, como o é qualquer obra literária, que, em sendo documento, não perde a característica de obra literária. Este é o diferencial do texto de ficção.
AO: Herberto Sales universalizou sua vivência nas lavras diamantinas por meio da linguagem. Podemos dizer que o fazer literário em Cascalho transforma o particular em fonte histórica?
Everaldo Augusto: Sim, tanto do contexto particular social e político, diante de um contexto mais geral do país, tanto do contexto particular dos indivíduos, com seus discursos, vontades e atos.
AO: Não sendo o objetivo principal de uma obra de ficção, denunciar uma realidade cruel a que estão submetidos toda uma classe de trabalhadores, como no caso os garimpeiros; no entanto, não alcançaria o romance Cascalho, por vias tortas, essa façanha, pela pressão social exercida pelos seus inúmeros leitores?
Everaldo Augusto: A Literatura não tem função, é Literatura, ponto final. No caso de Herberto Sales, poderíamos aplicar o que Ezra Pound chama de mestres, aqueles escritores cujo talento narrativo está acima dos demais escritores, a quem ele os chama de inventores. O próprio Herberto conta que após a publicação do romance Cascalho, os poderosos de Andaraí o ameaçaram de morte porque se sentiam denunciados na obra recém publicada.
AO: Herberto Sales, através de uma obra de ficção, conseguiu retratar perfeitamente as relações de poder estabelecidos pelo coronelismo. A partir de que momento essas relações começaram a mudar?
Everaldo Augusto: No romance Cascalho, Herberto Sales fala de um determinado tipo de coronelismo, cuja essência era a mesma de outros coronelismos pelo sertão, mas a forma muda, naturalmente. A perda de poder político dos coronéis se deu por uma série de transformações sociais, econômicas e políticas na primeira metade do século XX. Muito embora as marcas do coronelismo tenham sobrevivido através dos tempos em muitas partes do sertão.
AO: Qual é a maior contribuição que o romance Cascalho delegou à compreensão da civilização brasileira?
Everaldo Augusto: A contribuição é significativa, em todos os aspectos, sobretudo para que possamos compreender e decifrar o Brasil e para incorporar o imaginário do sertão na diversidade cultural do nosso povo.
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Sobre o autor
Professor, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal da Bahia, Everaldo Augusto nasceu em Brumado, BA, a cidade das pedras, onde começa a Chapada Diamantina, como costuma se dizer.
Da participação em Mostras de Poesia e da produção alternativa do poema-cartaz, Everaldo passou para a publicação de contos e poemas na revista Ave Palavra do Instituto de Letras da UFBA e de coletâneas de poetas baianos. É ainda desta safra o livro Poesia das Pequenas Coisas, editado pela EdufbaEditora Junior.
Além de professor e militante das letras, Everaldo Augusto tem outras militâncias junto aos movimentos sociais, no trabalho de organização sindical e na aplicação de projetos culturais vinculados aos trabalhadores. Atualmente exerce o mandato de vereador em Salvador, pelo PCdoB. Este engajamento é a fonte de outro veio de produção do autor. Everaldo Augusto tem participado de livros e revistas, assim como tem publicado artigos de conteúdo social e político, voltados para compreender as transformações sociais em curso e as implicações culturais das mesmas.
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Nota da Editora
A presente obra é a dissertação de mestrado apresentada por Everaldo Augusto no Curso de Mestrado do Instituto de Letras da UFBA. Aprovada com louvor pela Banca composta pelos Doutores Erivaldo Fagundes (UEFS), Ruy Espinheira (UFBA) e Jacques Salah, orientador, agora a temos no formato de livro.
Com o título original O romance Cascalho, de Herberto Sales, um retrato do garimpo da Chapada Diamantina, o autor mergulha na narrativa deste escritor baiano para estudar as características do texto literário de ficção, o seu caráter documental, a relação do texto ficcional com o texto histórico, a dessacralização do mito pela literatura, enfim o texto literário de ficção como biografia de um determinado contexto histórico, social, político, em resumo, cultural.
É oportuno que esta pesquisa seja agora apresentada ao público por diversos motivos, dentre os quais o de tornar mais conhecida a obra de Herberto Sales através do seu primeiro romance. Cascalho, objeto do estudo, se tornou um clássico da literatura brasileira porque traz para a literatura a vida de garimpeiros, jagunços e coronéis de um território conflado deste Sertão-Brasil e narra com maestria a realidade de uma região que pode ser considerada campo fértil dos mitos das culturas baiana e brasileira.
É inegável que esta obra de Everaldo Augusto servirá para os estudiosos das letras e da cultura da Bahia e para nos dar uma nova dimensão da pluralidade desta cultura.
Os Editores
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Prefácio
Cascalho, de Herberto Sales, romance-retrato do país do garimpo e da civilização do garimpo da Chapada Diamantina, apesar do sucesso obtido a partir de sua 2ª edição em 1951 e do fato de o autor pertencer à Academia Brasileira de Letras, foi raramente examinado em estudos universitários de fôlego ou mesmo em artigos mais substanciais.
O trabalho de Everaldo Augusto da Silva, Literatura e documento (Histórias e mitos na primeira narrativa de Herberto Sales) que ora temos a honra de apresentar e que tivemos o privilégio de orientar no curso do Mestrado em Letras da UFBA com o título mais específico de O romance Cascalho de Herberto Sales: um retrato do garimpo da Chapada Diamantina, veio com o deliberado e louvável propósito de ajudar a preencher lacunas da memória crítica. Além de inserir-se, tal como seu objeto de estudo, na linha temática batizada por Afrânio Coutinho de "ciclo baiano" do romance chapadista, a pesquisa de Everaldo Augusto aponta novos rumos da abordagem teórica em que uma sadia e segura visão comparatista lhe permite acentuar o incessante vaivém, o constante intercâmbio que existe entre o texto literário e o texto histórico.
Este movimento dialético que leva da História à ficção e que faz da ficção um documento, foi sobejamente identificado e analisado pelos romancistas e teóricos realistas e naturalistas do século XIX. Daí a ponte que Everaldo Augusto estabelece, com as devidas ressalvas quanto ao contexto histórico, social, político e literário diferente, entre Cascalho e Germinal de Emile Zola. As cenas de afogamento ou de soterramento, os momentos de egoísmo ou de sacrifício são sensivelmente os mesmos nos dois romances. As tragédias nas minas, em qualquer tempo ou espaço, se repetem com uma brutal banalidade à qual a literatura chinesa contemporânea, por exemplo, deverá trazer o seu aporte original.
No ponto de partida, encontram-se as narrações de viajantes, cientistas ou historiadores, os primeiros a darem uma imagem pretensamente fiel e objetiva da Chapada, da sua natureza e dos seus habitantes; quanto ao romance Cascalho, afirma Everaldo Augusto, ele é "uma re-invenção, pela linguagem, da geografia física e social descrita nos relatos de Spix e Martius, Teodoro Sampaio e Anita Prestes, transformando-a em literatura". Re-invenção ou reconstrução do real, pouco importam as diferenças de conceitos a partir do momento em que eles designam operações que integram o texto ficcional e legitimam a razão de ser do fazer literário. Apesar de tudo, salienta Everaldo Augusto na sua garimpagem do estritamente documental dentro do bloco aparentemente monolítico do romance, existem os fatos históricos incontornáveis que podem de um certo ponto de vista explicar e até justificar as atitudes dos coronéis, e as relações de trabalho menos visíveis mas poderosamente determinantes, estas e aqueles obliterados pela massa narrativa.
Além disso, e não é o menor elogio que se possa endereçar ao autor, a busca e o esforço de definição e de delimitação de uma "civilização do garimpo" em todos os níveis e nos recantos mais inesperados da matéria romanesca, evidenciam uma meta à qual o leitor se sentirá prazerosamente associado. A convivência da dura e trágica realidade com um cenário mítico cuja originalidade vai se revelando aos poucos, solicita sem parar a atenção, o senso crítico e a faculdade de recriação deste leitor. Nada de artificial nesse processo; Everaldo Augusto segura a nossa mão e nos leva no caminho da descoberta já trilhado, assimilado e reconstituído por Herberto Sales.
Apontando algumas marcas decisivas como a ausência de espaços de cidadania e a conseqüente estratégia de sobrevivência dos excluídos, características definidoras da civilização do garimpo, Everaldo Augusto identifica uma sociedade-providência ofuscada por uma excessiva hierarquização e cujo vocabulário deve se tornar uma das metas do pesquisador. É um justo retorno ao credo naturalista e à análise dos famosos "carnês" de Zola. É também uma maneira de ampliar uma pesquisa já vitoriosa, projetando-a no conjunto da produção romanesca da Chapada, e incluindo Herman Lima, Afrânio Peixoto, Almáchio Diniz, Xavier Marques e o grande precursor Lindolfo Rocha com seu romance Maria Dusá, de 1910; Lindolfo Rocha que teve a idéia de comunicar à ABL um léxico da Chapada Diamantina para ser incluído no famoso dicionário.
Após o êxito do presente trabalho, o público leitor tem o direito de exigir de Everaldo Augusto a promessa de uma publicação abrangendo o conjunto das obras dos autores citados anteriormente cuja preocupação essencial era o retrato da civilização do garimpo.
Jacques Salah
V. M. Davidov
Diretor do Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, doutor em ciências econômicas e professor
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Introdução
Herberto Sales, através do romance Cascalho, construiu uma biografia do garimpo de diamantes da Chapada Diamantina no sertão baiano. O que não deixa de ser também parte da sua própria biografia, dado ao conteúdo memorialístico da sua narrativa. Na obra, uma comunidade rural do interior da Bahia torna-se palco das aventuras e desventuras do garimpeiro na busca da pedra que simboliza a riqueza. O pano de fundo da trama é o contexto político da primeira metade do Século XX, no qual a nação se vê diante da necessidade de transformar a sua estrutura econômica baseada na produção agrária, modernizar as relações sociais conservadoras e suas instituições públicas, estas até então dominadas por um tipo de poder autoritário em âmbito nacional que, para se perpetuar, se valia da predominância do coronelismo no interior do país.
Os fatos históricos desta conjuntura repercutem nas Lavras Diamantinas de maneira diferenciada. Enquanto as elites locais buscam retirar o máximo de benefício dos fatos políticos nacionais, as camadas populares ouvem falar apenas de longe sobre eles, embora sejam chamadas a participar dos mesmos dentro da estratégia dos coronéis.
Em Cascalho, o romance do país do garimpo, Herberto Sales vai inscrever na prosa de ficção o universo da cidade de Andaraí, uma pequena comunidade representativa do que vamos chamar de Civilização do Garimpo. A cidade é dominada pelo coronel Germano, uma espécie de vice-rei das Lavras, e seu irmão, major Quelezinho Jardim. Nada se faz e nada se move na pequena cidade sem a permissão dos dois manda-chuvas. O autor, nas quatro partes do livro, vai nos mostrar como este universo extremamente controlado está, ao mesmo tempo, inserido na vida nacional e excluído dela, a depender do lugar ocupado pelo homem na hierarquia social. Do ponto de vista daqueles que detêm o poder local, a comunidade de Andaraí faz parte dos acontecimentos nacionais, enquanto que para aqueles que vivem do duro ofício de garimpagem ou de pequenas profissões, esta comunidade está na periferia da nação.
Capa da 3ª edição de Cascalho. Rio de Janeiro, 1953.
A narrativa de Herberto Sales contrói, em vários planos, um retrato da Civilização do Garimpo do qual fazem parte os conflitos sociais, a exploração desmedida a que são submetidos os garimpeiros, os desmandos da polícia e dos jagunços, a hipocrisia da vida dos bem afortunados e a vileza do homem exposto a condições de vida aviltantes. Ao lado deste plano sociológico vamos encontrar uma descrição sobre a paisagem geográfica da Chapada Diamantina, com suas serras, abundância dos rios, grutas e pedras monumentais, flora e fauna, que a distingue de outras partes do sertão, como a caatinga e o cerrado. Interagindo com este meio natural, o autor descreve o homem das Lavras, preso à atividade econômica do garimpo desde os tempos do Brasil Colônia. O garimpeiro de Herberto Sales, por não ter os necessários recursos tecnológicos, desenvolveu o seu conhecimento do mundo a partir da sua própria experiência na relação com a natureza.
Este conhecimento, construído no contato do homem com a natureza, fruto da experiência prática do garimpeiro, é apresentado no romance como um conhecimento mítico sobre o mundo, adquirido num tempo primordial, ao qual ele, o garimpeiro, recorre para, não somente compreender o mundo natural, mas também para tentar compreender as relações sociais nas quais está inserido.
Assim, o romance Cascalho articula a história, o espaço geográfico, os conflitos sociais explícitos e latentes, o conhecimento mitológico do garimpeiro e a própria opinião do autor, numa biografia da Civilização do Garimpo da Chapada Diamantina da Bahia. A propósito, tentaremos demonstrar, através dos relatos de viajantes – Spix e Martius, Teodoro Sampaio e da Coluna Prestes, este último feito por Anita Leocádia –, que as evidências da constituição desta civilização antecedem a obra de Herberto Sales e que o romance Cascalho é uma superposição de textos históricos, literários e sociológicos, que dialogam entre si e com os mitos da região, presentes na religiosidade, na oralidade e nos costumes do garimpo do interior da Bahia.
Os aspectos simbólicos da vida no garimpo, retratados com minúcias no romance, destacam o caráter singular da cultura da região que, mesmo sendo um território de passagem, consegue se impor à cultura do estrangeiro que por ali passa. Aqueles que por lá chegam e não se submetem a determinados rituais de iniciação, ou não logram sucesso nestes rituais, permanecem como estrangeiros ou são estigmatizados como cópia de uma cultura vinda de fora, como é o caso das famílias aquinhoadas do lugar, que copiam o modo de vida das elites urbanas da metrópole.
A obra de Herberto Sales nos mostra como esta cultura baseada nos mitos, circunscrita aos limites próprias do país do garimpo, para preservar-se, forjou inúmeros fatores que condicionaram a extração artesanal do diamante e, ao mesmo tempo, foi por eles condicionada. Esta combinação das formas simbólicas da cultura, condicionando e sendo condicionada pela atividade econômica do garimpo, é retratada por Herberto Sales, no romance Cascalho como um registro dos acontecimentos da região. Em razão disso, vamos analisar o caráter documental do romance que traz para o presente uma civilização que se encontrava, e ainda se encontra, em risco de existir apenas através de vestígios, dado ao silenciamento, acerca dela, que se seguiu à decadência econômica e política da região, a partir da segunda metade do século XX.
O caráter biográfico do texto literário será uma das motivações centrais desta análise que fazemos do romance Cascalho. Buscamos identificar na obra os marcos históricos da constituição da Civilização do Garimpo, ficcionalizados pelo autor e como se dá na narrativa literária a composição da biografia da região através da descrição do meio natural, da construção dos personagens e no registro dos depoimentos de garimpeiros, capangueiros, pedristas, jagunços, migrantes e coronéis que desfilam pelas ruas de Andaraí.
Praça Aureliano Gondim, década de 40.
Assim o nosso trabalho é composto de quatro partes, além da Introdução. No Capítulo I tratamos da Civilização do Garimpo e das suas partes constituintes: o espaço ficcional da obra, os relatos de viajantes sobre a Chapada Diamantina e o início do povoamento da região.
No Capítulo II falamos do caráter documental do romance Cascalho, fazendo a distinção entre texto de ficção e relato histórico, assinalando as diferenças de relação dos dois textos com o real e a presença do garimpo na prosa de ficção baiana.
O Capítulo III analisa a biografia social do garimpo presente no romance. Aqui, procuramos falar da cidade de Andaraí como parcela representativa do universo da Chapada Diamantina, dominada pelos coronéis através de uma rede de sustentação, cujo poder, em boa parte, advém das relações deles com o Estado. Ainda neste capítulo, tentaremos verificar a existência de um discurso de contestação ao poder local e, também, falar da Civilização do Garimpo como território de passagem de estrangeiros ao longo do tempo.
No Capítulo IV vamos falar do garimpo da Chapada Diamantina como uma civilização baseada num jogo de enganos, no qual a riqueza dos coronéis tem seu lado verdadeiro em permanente jogo com a aparência e a simulação de uma fortuna, que se esvai ao menor abalo provocado por mudanças no mundo exterior. Neste jogo de engano o garimpeiro é o principal envolvido. Na busca incessante e obsessiva da pedra da fortuna ele não muda de lugar social, mesmo nas raras vezes em que consegue o bambúrrio1. Diante disso cabe aos explorados na Civilização do Garimpo constituir uma sociedade-providência para sobreviver.
Ao concluir, reafirmamos que o romance Cascalho se insere no campo da literatura como uma obra de afirmação da cultura baiana à medida que coloca em evidência uma determinada cultura local, cujo grau de singularidade contribui para a diversidade cultural do Estado.
Notas
(1) Bambúrrio: Momento de êxtase no qual o garimpeiro, agraciado pela sorte, consegue achar o diamante, o que provoca múltiplas alterações de comportamento do mesmo e de deslocamento temporário do seu lugar social.
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Sobre Herbert Sales
"São raríssimos os escritores que iniciam sua carreira literária publicando uma obra definitiva –um clássico. E foi exatamente o que aconteceu com Herberto Sales, que estreou em 1944, com Cascalho, definido pelo crítico Wilson Martins como uma "admirável interpretação romanesca de uma cruel realidade". O impacto causado por este livro não se limitou ao Brasil, logo surgindo traduções para diversos países, entre os quais Tchecolosváquia, Romênia, Itália, Polônia, Argentina, Rússia, China, Coréia e Japão, além da edição em Portugal." Ruy Espinheira, Posfácio, in Os Pareceres do Tempo1.
A os 27 anos, Herberto Sales era morador das Lavras, mas precisamente da cidade de Andaraí, lá no "país do garimpo", um dos tantos "países" do sertão brasileiro. Muitas coisas são inusitadas na vida deste escritor, uma delas é que, mesmo tendo morado no Rio de Janeiro, Brasília, Paris e, finalmente, São Pedro da Aldeia, durante toda a vida Herberto Sales continuou sendo morador de Andaraí, um morador especial, confessa ele, pois "as pessoas não se vão de todo, dos lugares de onde viveram".2
É que a cidade, na qual ele nasceu e viveu a juventude, foi raptada pela sua memória e lá permaneceu durante toda a sua obra. Esse rapto era, na verdade, uma obsessão do autor, revelada pelas suas palavras: "O Andaraí de hoje, no meu tempo Lavras Diamantinas, virou Chapada Diamantina, com turismo, pousada e discoteca. Mas, o meu Andaraí eu carreguei comigo quando de lá saí, dentro da mala, junto com a minha roupa e os meus sonhos. Quando eu quero retornar a esse Andaraí, é só ir para o meu quarto, ligar o toca-fita e só comigo mesmo ficar pensando. Me lembrando."3
Rua Raul Dantas, início do século XX.
Contudo, a sua obra revela também que o rapto da cidade real era uma necessidade de quem quer narrar, tinha por objetivo devolvê-la de outra forma através da narrativa: "Meu Andaraí é outro. Meu Andaraí eu carrego comigo. Carrego dentro de mim. Com os meus mortos e com os marimbus dos meus romances."4 E, resignado e complacente, é ele mesmo que se desculpa, à guisa de explicação: "a terra da gente não larga a gente"5
Herberto Sales (centro) aos 13 anos, com os seus primos afins Alberto (direita) e Domingos Dantas. Foto tirada em Andaraí.
Herberto Sales, para contar as histórias de garimpeiros, escreveu o romance Cascalho quando tinha 27 anos de idade. E, no ato de contar histórias, denunciou, ao mesmo tempo, a opressão e o abandono que uma legião de homens estava submetida pelo poder dominante local, conservador e atrasado, sob todos os aspectos. Entretanto, a sua obra de estréia ganhou outros significados, pois o romance Cascalho tornou uma grande, complexa e rica biografia do "país do garimpo", como ele chamava as Lavras Diamantinas, conhecidas por nós como Chapada Diamantina, território dos mitos, crendices, revoltas, coronéis, história e estórias da cultura baiana.
O romance Cascalho, publicado pela primeira vez em 1944, e depois em versão definitiva em 1951, ocupou um lugar na literatura brasileira pela construção narrativa do autor, pelo seu inegável talento de devolver, através da linguagem, o universo real que havia raptado. Esta devolução do real está na construção verossímil dos personagens, que retratam os diversos tipos que circulam nas ruas de Andaraí. Está também no registro da cultura lavrista, nos relatos das crendices, dos mitos e da descrição da natureza. "Em Cascalho, o linguajar local e o jargão da zona diamantífera tornam-se uma constante e se harmonizam com a linguagem clássica, contida, sem transbordamentos do autor. O linguajar local está aí presente, inscrito dentro de uma dimensão artística."6
Rua da Glória, antiga Rua do Curral.
O romance Cascalho ocupa lugar de destaque na literatura brasileira também pelo sentido histórico da obra, que ficcionaliza fatos locais e nacionais vividos pelos diferentes personagens das Lavras. O romance joga luz sobre esses fatos, realçando uma das facetas da literatura, aquela de ser também documento. Sobre isto Herberto Sales demonstra ter ciência: "Muitas vezes a verdade é mais encontrada nas obras de ficção que nas obras de história em que a buscamos".7
Depois do primeiro romance, cujo sucesso de lançamento foi o primeiro passo para que fosse transformado posteriormente em clássico da literatura brasileira, Herberto Sales publica outras obras deste veio memorialístico, como "Além dos marimbus" e "Dados biográficos do finado Marcelino". A partir daí esse veio se abriu para outros gêneros narrativos e para outros mundos além das Lavras de Andaraí.
Batalhão patriótico na Praça Aureliano Gondim, 1920.
Notas
(1) ESPINHEIRA, Ruy. Posfácio, In: Os pareceres do tempo, Herberto Sales, 4a edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.
(2) SALES, Herberto. Subsidiário, confissões, memórias e histórias. José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1988. p. 120.
(3) SALES, Herberto. Subisidiário 2, andanças por uma lembrança, segredos e revelações. Cia Editora Nacional. São Paulo, 1991. p. 164-165.
(4) SALES, Herberto. Subsidiário, confissões, memórias e histórias. José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1988. p. 120.
(5) Idem, Subsidiário, confissões, memórias e histórias. José Olympio Editora, Rio de Janeiro. 1988. p.406.
(6) ALVES, Ívia Iracema. Herberto Sales, Fundação Cultural do Estado da Bahia, Salvador, 1979, p. 10.
(7) Ibidem, p. 306.
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Obras de Herberto Sales
Cascalho (romance). 9. ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1944.
Dados biográficos do finado Marcelino (romance). 4. ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1965.
Além dos Marimbus (romance). 5. ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966.
Histórias ordinárias (contos). 4. ed. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966.
O sobradinho dos pardais (infantil). 13. ed. São Paulo: Melhoramentos.
O lobisomem e outros contos folclóricos. 8. ed. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1970.
Uma telha de menos (contos). 4. ed. Rio de Janeiro: Editorial Tormes, 1970.
A feiticeira de Salina (infantil). 4. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1974.
Transcontos (contos de Histórias Ordinárias e Uma Telha de Menos). 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
A vaquinha sabida (infantil). 17. ed. São Paulo: do Brasil, 1974.
O homenzinho dos patos (infantil). 17. ed. São Paulo: do Brasil, 1974.
O casamento da raposa com a galinha (infantil). 4. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
O fruto do vosso ventre (romance). 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
O Japão, experiências e observações de uma viagem (notas de viagem). Brasília: Embaixada do Japão, 1979.
Armado Cavaleiro, o audaz motoqueiro (contos). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
O burrinho que queria ser gente (infantil). 3. ed. São Paulo: do Brasil, 1980.
Einstein, o minigênio (romance). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
Em 1971, Herberto é eleito para a Academia Brasileira de Letras. O novo imortal, na foto, com seus pares, e a seu lado Austregésilo de Ataíde, presidente da casa.
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Referências Bibliográficas
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado. Trad. Walter José Evangelista e Maria Laura viveiros de Castro. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal,1987.
ALVES, Ívia Iracema. Herberto Sales. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979.
AMADO, Jorge. Seara vermelha. 46. ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.
Anuário estatístico da Bahia. V. 1. Superintendência de estudos econômicos e sociais da Bahia. Salvador. 1998.
BAKHTIN, Mikhail. O freudismo. Tradução: Paulo Bezerra. São Paulo: Perspectiva, 2001.
________ Questões de literatura e de estética, a teoria do romance. Tradutoras: Aurora Fornoni Bernadini et alii. 3. ed. São Paulo: UNESP, 1993.
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Tábua Geral da Matéria
Sobre o autor, VII
Nota da editora, IX
Capa da 1ª edição de Cascalho, XI
Sobre Herberto Sales, XIII
Prefácio, XVII
Introdução, XXI
CAPÍTULO I
A civilização do garimpo, 27
1. Espaço ficcional do romance Cascalho, 27
2. Ficção de identidade, 32
2.1. Viagem ao garimpo da Bahia, 38
2.2. Um engenheiro visita o garimpo, 42
2.3. Travessia de um território conflagrado, 44
3 - As primeiras pedras da civilização do garimpo, 48
CAPÍTULO II
Cascalho: romance documental, 53
1. Texto de ficção, relatos histórios e o rea, 53
2. Texto de ficção e texto histórico, 58
3. Obra literária como documento, 60
4. O garimpo na prosa de ficção, 65
CAPÍTULO III
Cascalho e o território social do garimpo, 77
1. Coronéis do diamante, 80
1.1. Rede de sustentação, 84
1.2. Poder contra poder, 89
1.3. O poder contra si mesmo, 95
2. Rede de Contestação, 100
2.1. O discurso da conspiração, 103
2.2. Estrangeiro no território de passagem, 106
CAPÍTULO IV
O garimpo: uma civilização cristalizada, 109
1. Jogos de enganos, 109
2. Civilização do garimpo: uma sociedade providência, 117
3. Outras marcas da civilização do garimpo, 124
Conclusão, 129
Iconografia, 135
Obras de Herberto Sales, 143
Referências bibliográficas, 145
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