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Para sociólogo, reação norte-americana aos ataques de 11 de setembro agravou a truculência e agressividade na geopolítica mundial. Clique aqui para ouvir.
Crítica da concepção teológica do mundo
O futuro das religiões e a religião do futuro

Jacob Bazarian

Jacob Bazarian viveu mais de 80 anos. Desses anos todos, 50 ele dedicou à filosofia; e isso num país que dá pouco valor - quase nenhum - ao pensamento. E quem pensa, e passa a vida a pensar, sabe: pensar não acaba nunca porque é continuado por outras pessoas.



JACOB BAZARIAN -1973
Entrevista sobre a superstição

Pergunta: Prof. Jacob Bazarian, o senhor poderia nos dar uma noção do que seja superstição?


Bazarian: A superstição é a crença no poder maléfico ou benéfico de um objeto, de um ato ou de uma idéia, sem que haja para isso nenhuma prova que confirme a verdade da mesma.
Eis alguns exemplos de superstição: a crença de que o dia 13 (sexta-feira, Agosto) é dia de azar; acender o 3º cigarro com o mesmo palito de fósforo é fatal; passar debaixo de uma escada é perigoso; gato preto que cruza o nosso caminho dá azar; a crença no poder benéfico sobrenatural de fetiches, tais como amuletos, talismãs, etc., etc.

Tais crenças são irracionais e infundadas. Para provar isso basta observar atentamente os casos em que as crenças não são confirmadas pela prática.
Um só exemplo: quantos motoristas não morrem em desastres, apesar de terem, em seus carros, fetiches de vários tipos: amuletos, talismãs, figa, ferradura, pé de coelho etc., que deveriam protegê-los de todos os perigos.




190 pp. - R$ 41,00
ISBN 85-295-0027-X
Cod. barras: 9 788529 500270


Pergunta: O senhor poderia nos dizer como nascem as superstições?

Bazarian: É evidente que essas crenças só nascem devido à ignorância das causas reais e naturais dos fenômenos.

O homem chamado primitivo, isto é, iletrado e inculto, sem espírito científico, por ignorar as causas reais e naturais dos fenômenos, atribuía as causas dos fenômenos a objetos que teriam um poder mágico dentro de si (fetiches) ou à vontade de entidades sobrenaturais (deuses, santos, etc.).
 
O homem em geral, tanto o primitivo como o civilizado, aprende por reflexo condicionado. Quando a um fenômeno F1 segue um fenômeno F2, ele tende a considerar o primeiro como causa e o segundo como efeito. Por exemplo: Ele passa debaixo de uma escada e caí um tijolo em sua cabeça. Conclusão: passar debaixo de escada é perigoso. Esse homem deixa de passar debaixo da escada, mesmo que não tenha ninguém trabalhando na escada. Outro exemplo: Ao andar pela rua, um gato preto cruza-lhe o caminho. Nesse dia ele teve azar nos negócios. Conclusão: Gato preto cruzando o caminho da gente dá azar e deve-se contorna-lo. Como se vê nesses exemplos, os fenômenos estão relacionados de modo fortuito, casual, isto é, não há nenhuma relação causal entre um fenômeno e outro. É uma questão de puro acaso, sorte ou azar.


Pergunta: Mas, professor, apesar de as superstições, como o senhor diz, não serem confirmadas pela prática, por que subsistem em tão grande escala?

Bazarian: Acontece que a maioria das pessoas não tem espírito científico, que consiste em aceitar uma coisa como verdadeira só depois de comprovada pela prática social. A prova é o único critério da verdade de um juízo ou de uma tese. O espírito científico é muito recente na história da civilização. Basta lembrar que a história do homem contemporâneo tem cerca de um milhão de anos, começando com o aparecimento do Pitecantropo Erecto - chamado Homo Sapiens Primitivo. E o espírito científico apareceu só há uns 400 anos atrás, com a criação das primeiras ciências, a Astronomia e a Física, com Giordano Bruno, Kepler, Galileu Galilei, etc. E, posteriormente, com a criação de outras ciências, tais como: Química, Biologia e, atualmente, Antropologia, Sociologia e outras ciências.


Pergunta: Mas, professor, se o espírito científico já tem 4 séculos, como o senhor explica que há tanta superstição no mundo atual? Outro fato relacionado com isso: segundo certos cientistas sociais, a superstição aumentou, justamente, nos países mais desenvolvidos econômica e culturalmente?

Bazarian: Em primeiro lugar, é só uma minoria bem reduzida que alcançou o espírito científico, a maioria conservando-se no estado pré-científico.

Em segundo lugar, uma pessoa pode ter espírito científico no domínio de sua especialidade, mas não aborda com o mesmo rigor científico os fenômenos em outros domínios.

Por exemplo: Freud, pai da Psicanálise, é um gênio no domínio da Psicologia profunda, mas ignora a perspectiva sociológica necessária para explicação da gênese de certas neuroses e psicoses, que têm essência estritamente social e não individual e sexual como ele pretende. Outro erro grave dele foi querer explicar a mentalidade religiosa por fatores sexuais.
Outro exemplo: Einstein, pai da Teoria da Relatividade, é um gênio na Física, mas comete muitos erros quando faz excursões em domínios desconhecidos por ele, como em filosofia por exemplo.
Quanto à segunda parte da pergunta, isto é, o fato de haver um recrudescimento e difusão da superstição justamente nos países mais adiantados, isso pode ser explicado a meu ver, do seguinte modo: na sociedade complexa dos países superdesenvolvidos, econômica e culturalmente, as relações humanas se tornaram muito complexas, as ciências se tornaram muito sofisticadas, de tal modo que o homem comum, dessas grandes civilizações, não chega a compreender essa complexidade e se encontra na mesma posição de perplexidade e ignorância do homem inculto numa sociedade subdesenvolvida culturalmente. Assim, afim de alcançar um certo equilíbrio emocional e intelectual, ele procura nas religiões, no misticismo e nas diversas crenças supersticiosas, uma explicação das coisas e do mundo como um todo que, para ele, não passa de um caos.
É por isso que nós vemos nos países tão adiantados, como Estados Unidos, Inglaterra, França, um reflorescimento de doutrinas místicas e supersticiosas, tais como espiritismo, magia branca, magia negra, feitiçaria, bruxaria, demonologia, discomania, contatos com seres de outros mundos, astrologia, quiromancia, cartomancia, vidência com bola de cristal, etc., etc.


Pergunta: Prof. Jacob, as crenças supersticiosas têm aspectos positivos ou são inteiramente negativos?

Bazarian: A superstição tem aspectos negativos e positivos.

O aspecto negativo consiste em que a superstição dá ao indivíduo uma visão deformada, fantástica, falsa da realidade, isto é, das causas reais e naturais dos fenômenos.

Nesse sentido as superstições atrapalham mais do que ajudam a obter êxito nas ações humanas. Não é armado de crenças supersticiosas que se pode vencer na vida, mas sim, armado de conhecimentos científicos.

Mas, as superstições também tem aspectos positivos. O indivíduo que vive num mundo que para ele parece caótico, onde ele não entende nada, nem a causa e origem das coisas, nem seu sentido ou finalidade, ele sente-se totalmente perdido e desorientado. Para evitar a alienação mental e a desintegração social, ele precisa readquirir o equilíbrio emocional e mental. Nesse plano, os diversos tipos de superstições, as crenças religiosas, as diferentes doutrinas místicas, espiritualistas e esotéricas, lhe dão uma explicação sejam fictícias e estejam longe de serem científicas, mesmo assim elas contribuem para a consecução do equilíbrio procurado e necessário para sua sobrevivência, como ser social ajustado. Pois o homem é um ser que indaga e não pode viver sem achar a resposta, ainda que essa resposta não lhe pareça totalmente satisfatória. O homem comum prefere uma explicação verossímil ou ilusória a nenhuma.


Pergunta: É possível e conveniente superar as superstições, e como pode ser feito isso?

Bazarian: Não há dúvida que a superação das superstições só pode ser benéfica ao indivíduo e à sociedade em que ele vive, pois não é com superstições que se pode vencer na vida pessoal e contribuir para o progresso da sociedade.

Para conseguir superar as superstições só há um caminho: cultivar e aprimorar o espírito científico, procurando explicações científicas em seu domínio de atividade e, na medida do possível, nos demais domínios.

E, como já disse, a explicação científica consiste em encontrar a causa real e natural de um fenômeno.

Para saber se um fato é a causa real e natural de um fenômeno só há um caminho: a prova, a comprovação, a verificação pela prática social e pela demonstração lógica.

Assim, o divisor das águas entre a ciência e a crença supersticiosa é o fato comprovado.


O problema da superstição no Brasil

Do que acima foi dito, podemos chegar à conclusão de que o Brasil, como outros países subdesenvolvidos, desenvolvidos ou superdesenvolvidos culturalmente, tem também suas crenças supersticiosas. Muitas delas comuns aos outros povos e outras próprias do nosso povo. Entre as superstições próprias do nosso povo podemos enumerar aquelas que são divulgadas pelas diversas seitas religiosas do cristianismo, do espiritismo, da umbanda, do quimbanda, tais como a crença no anjo, no diabo, no saci-pererê, na mula-sem-cabeça, na pomba-gira, etc., etc.

É interessante anotar que, devido ao nosso atraso cultural e científico, existe uma série de crenças supersticiosas sobre alimentos e ervas, que não são compartilhadas por outros povos e nem confirmadas pela prática.

Por exemplo: Muita gente pensa que faz mal à saúde comer manga ou abacaxi com leite, pepino com coalhada (que aliás, é um prato predileto dos árabes) e muitas outras baboseiras.

Como já dissemos, à medida que o espírito científico vai sendo divulgado entre as diversas camadas da população, as crenças supersticiosas vão sendo, paulatinamente, substituídas por conhecimentos científicos.

Se nós queremos um Brasil desenvolvido cultural e economicamente, ocupando seu devido lugar no concerto das grandes nações, precisamos tomar sérias medidas para a difusão dos conhecimentos científicos, através de todos os meios de comunicação, tais como rádio, televisão, jornais, revistas e livros de divulgação científica. Pois não é com superstições que se constroem estações hidroelétricas, se aumentam a produção agrícola e industrial e se fazem as grandes nações.



Sobre o Autor

Jacob Bazarian começou sua vida de armênio errante aos 3 anos. Foi levado para a Síria e depois para a França. Chegou ao Brasil e aqui viveu 20 anos, até‚ iniciar sua viagem de volta. Seguiu para a França, depois para a Armênia. E retornou ao Brasil.

Nessas passagens todas conheceu a miséria. Queria saber quais seriam as razões da injustiça social. Pensava em Deus e questionava-o. A indignação e a dúvida a conduziram à procura da verdade devida à luta por um regime de justiça social.

Tornou-se descrente do cristianismo e também de todas as religiões. Estudou filosofia e encontrou novas vivências teóricas e práticas. Entretanto, percebeu que algumas doutrinas filosóficas racionalizavam a injustiça social, legitimando o regime capitalista. E descobriu que o marxismo possibilitava compreender e interpretar o mundo e a sociedade para transformá-los, para torná-los melhor.

Entrou no movimento comunista e sofreu perseguições, que o levaram ao exílio na França. Expulso deste país, foi para a União Soviética onde conheceu o socialismo real existente (SOREX).

A longa passagem pela União Soviética foi fundamental para o pensador que é. La aprendeu a distinguir a realidade do mito - a realidade nua e crua, daquela oferecida pela versão oficial. E apesar da desilusão com o regime soviético por não corresponder aos ideais de Marx e Lênin continua até hoje adepto da filosofia do materialismo dialético e histórico - a lutar por um mundo melhor.

Na volta ao Brasil, ele resolveu continuar aqui sua procura por uma regime justo, democrático e humano, talvez, destinado ao mundo inteiro. E o que Jacob Bazarian tem feito é continuamente contribuir para melhorar o mundo, antes, tratando de melhorar o homem.




Obras de Jacob Bazarian

Alguns trabalhos do autor publicados na URSS (em russo)

"A luta das forças progressistas brasileiras contra a ideologia imperialista" (Tese de Candidato a Doutor em Ciências Filosóficas defendida no Instituto de Filosofia da Academia de Ciências da URSS), Moscou, 1956.
"Confissões de um sociólogo brasileiro", na revista Problemas de Filosofia, Moscou, 1958, nº 8.
"O ilustre pensador brasileiro do séc. XIX Tobias Barreto", na Revista da História da Cultura Mundial, Moscou, 1959, nº 6.
"O ilustre pensador brasileiro Euclides da Cunha", na Gazeta Literária (Orgão oficial da União dos Escritores Soviéticos), Moscou, 15/8/1959.
"A essência reacionária da filosofia de Nietzche", na revista Kommunist, (Orgão oficial do PCUS), Moscou, 1961.
"O Brasil - séc. XX", na revista Tempos Novos, Moscou, 1961, nº 44.
"Lima Barreto, como escritor e pensador", na revista Problemas de História, Moscou, 1962, nº 11.
"José Bonifácio - Patriarca da Independência do Brasil", na revista União Soviética, Moscou, 1963, nº 6.
"A filosofia brasileira", na Enciclopédia Filosófica, T.I., 1960.
"O pensamento filosófico e sociológico brasileiro, desde a metade do séc. XIX até o começo do séc. XX", na História da Filosofia, T. II, IV e V, Moscou, 1957-1961. (Obra coletiva do Instituto de Filosofia da Academia de Ciências da URSS).
"Introdução" à edição russa do livro de João Cruz Costa "Panorama da História da Filosofia no Brasil", Moscou, 1962.
"As correntes filosóficas e sociológicas no Brasil contemporâneo", no livro coletivo Brasil, Moscou, 1963.
"O pensamento filosófico e sociológico brasileiro contemporâneo", no livro coletivo A filosofia e sociologia nos países da Europa Ocidental e América, Moscou, 1964.
Verbetes sobre filósofos e sociólogos brasileiros, desde o séc. XIX até os nossos dias, publicados nos 5 volumes da Enciclopédia Filosófica, Moscou, 1960-1970.



Algumas obras do autor publicadas no Brasil


Mito e Realidade sobre a União Soviética, São Paulo, 3ª edição, 1983.
Intuição Heurística, Ed. Alfa Omega, S. Paulo, 3ª edição, 1986.
Curso de Sociologia (Contribuição para uma Sociologia Pluri-estrutural), Ed. José Bushatsky, São Paulo, 1972.
A Arte de Aprender, Ed. Livraria Nobel S.A., São Paulo, 1972.
Considerações Filosóficas sobre a Sociedade Ideal, Edição da Faculdade de Direito de Caruaru, Pernambuco, 1974. (Republicado no Livro "Mito e Realidade sobre a União Soviética" do autor).
A Origem e Evolução das Coisas (do Cosmos, da Vida, do Homem, da Sociedade e do Pensamento), Ed. do D. A. "Júlio Prestes" da Faculdade de Direito, Administração e Comunicação de Itapetininga (São Paulo), 1975.
O Problema da Verdade, Ed. Símbolo, São Paulo, 1980. [Reeditado pelo Círculo do Livro de São Paulo.] 3ª ed., Alfa-Omega, São Paulo, 1988.
Introdução à Sociologia - As Bases Materiais da Sociedade, Ed. Alfa-Omega, São Paulo, 1982; 2ª edição, 1986.
Por uma sociedade melhor. Para onde marcha a Humanidade. São Paulo, Alfa-Omega, 1989.



Quarta capa

O filosofo Jacob Bazarian apresenta aos leitores brasileiros seu mais recente trabalho, Crítica da concepção teológica do mundo – O futuro das religiões e a religião do futuro. Iniciado em 1975, o livro esperou 27 anos para vir a público, em parte por relutância do autor, que aguardava o momento oportuno para sua publicação, e também porque Bazarian, ao longo desses anos todos, envolveu-se em outros projetos que o impediram de concluir seu trabalho.

Jacob Bazarian, autor reconhecido por trabalhos esplêndidos, do quilate de O Problema da Verdade – Teoria do Conhecimento; Intuição Heurística; Por que nós os brasileiros somos assim?; Introdução à Sociologia – As bases materiais da sociedade, e de Por uma sociedade melhor, - tratou de diversos temas filosóficos e sociológicos em seus livros, os quais contribuíram significativamente para a produção científica brasileira. Aliás, isto é algo característico do trabalho de grandes filósofos. E com o seu ensaio Crítica da concepção teológica do mundo, Bazarian busca transmitir aos leitores as suas idéias e os seus pensamentos acerca de um assunto muito importante e atual: o papel da religião na sociedade moderna e futura.

Mas deixemos que o próprio autor nos ilustre sobre o público que pretende atingir com o seu texto: O presente livro é destinado sobretudo àqueles que estão na dúvida, que oscilam entre a crença e a descrença num criador, entre o teísmo e o ateísmo, àqueles que têm curiosidade e interesse em conhecer a concepção filosófico-científica a respeito do verdadeiro criador.

Escrito em linguagem acessível - por ser a mesma concisa e precisa - Jacob Bazarian cumpre o papel do verdadeiro filósofo, que é o de ilustrar o maior número de leitores possíveis sem, contudo, perder a objetividade necessária – princípio fundamental para um texto filosófico de qualidade. A Editora Alfa Omega, ao apresentar aos seus leitores mais um título de Jacob Bazarian, procura contribuir para a formação, junto à sociedade brasileira, de uma concepção científica do mundo.



Dedicatória

Este livro é dedicado a todas as pessoas idealistas e humanistas que querem se libertar de idéias errôneas e conhecer a verdade acerca do mundo, a fim de poder mudá-lo para melhor.



Agradecimentos

Quero externar meus sinceros agradecimentos às pessoas abaixo mencionadas que tiveram a gentileza de ler o manuscrito e de fazer sugestões e observações críticas:
Natália Murata, Prof. José Geraldo Martins Ferreira, Carlos Fidêncio, Hélio Rubens de Arruda e Miranda, Eliel Maurício, Inácio Bueno, Prof.ª Dalva Alves dos Santos, Prof. José Luiz Ayres Holtz e Prof. Roberto A. R. de Aguiar.



Oferecimento

Ofereço este livro a Natália Murata, que, com suas insistentes perguntas sobre a religião, me induziu a escrever sobre tema tão atual e palpitante.




Epígrafes

"Reconduzindo os homens aos sentimentos de seus deveres recíprocos, o espiritismo neutraliza o efeito das doutrinas subversivas da ordem social." - Allan Kardec

"A religião é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, tal como é o espírito de condições sociais de quem o espírito está excluído. Ela é o ópio do povo." - Karl Marx

"A crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica." - Karl Marx

"Deus é o nome com que os ignorantes designam as forças ou as causas reais e naturais que ainda desconhecem." - Jacob Bazarian




Prólogo

Por uma sociedade mais humana

Obras do ciclo "Por uma sociedade mais humana"

Refletindo sobre a história da humanidade e sobre a essência da sociedade humana, chegamos à conclusão inabalável de que a construção de uma sociedade ideal e perfeita é totalmente utópica e, portanto, impossível. O que é possível, isso sim, é construir uma sociedade melhor do que as que existiram até agora, jamais, porém, atingindo a perfeição.

A preocupação principal do homem é encontrar um modus vivendi em que ele seja mais feliz, e isto sé é possível em uma sociedade melhor, isto é, mais justa, mais democrática e mais humana.

Nós não pretendemos solucionar esse problema fundamental da convivência humana, que até agora ninguém resolveu. O objetivo principal dos nossos trabalhos é trazer uma modesta contribuição para a criação dessa sociedade melhor.

Para alcançar esse objetivo é necessário desvendar quais são os requisitos indispensáveis para a criação desse modus vivendi procurado pelos homens e que chamaremos, convencionalmente, de sociedade mais humana. E qual o critério pelo qual se pode julgar ou avaliar se determinada sociedade é ou não é mais humana.
O primeiro passo para isso é conhecer bem a sociedade em que vivemos. Sem um conhecimento profundo da essência da sociedade não é possível interpretá-la corretamente e muito menos transformá-la em beneficio do homem que é a principal tarefa da humanidade.

A Sociologia nos ensina que a sociedade é formada de grupos de homens, cujo núcleo central é o homem. Assim como não existe ser humano fora da sociedade, não existe sociedade sem seres humanos. Assim, a sociedade é o modo de convivência natural dos seres humanos. Logo, para conhecer melhor a essência da sociedade é necessário conhecer a essência do homem.

Mas, apesar de ser social, o homem é antes de tudo um ser animal, dotado de vida. Logo, para conhecer a essência do homem é preciso conhecer a essência da vida.
E como a vida faz parte da natureza, para conhecer a essência da vida é preciso conhecer a essência da natureza, do cosmos, do universo.

A filosofia nos ensina que a melhor maneira de conhecer a essência das coisas é estudar a sua origem (gênese) e evolução.

Só assim estaremos em condições de compreender o sentido da vida e a finalidade da sociedade humana. Só assim poderemos responder às importantes perguntas filosóficas existenciais: O que somos? De onde viemos? Para onde vamos? Para que vivemos? Qual é o sentido da vida o destino da humanidade e o fim último do universo? Como devemos agir? Como construir uma sociedade mais justa e mais humana, onde possamos ser mais felizes?

Porém, antes de abordar esses problemas é necessário resolver outro problema importantíssimo: nós podemos conhecer a verdade, isto é, a essência das coisas, a sua origem e evolução? Qual é o valor dos nossos conhecimentos a esse respeito? Em outras palavras, é necessário estudar o processo do conhecimento da verdade e encontrar o critério objetivo e universal da verdade.

Assim, para conhecer todas as coisas acima enumeradas é necessário começar com o estudo dos problemas do conhecimento humano. E só depois disso será possível atacar com segurança e eficiência os demais problemas.

Conseqüentemente, uma pesquisa "Por urna sociedade mais humana" deve constar; pelo menos, dos seguintes estudos.

1. O processo do conhecimento da verdade (Gnosiologia ou Teoria do Conhecimento)
2. Crítica da concepção religiosa do mundo (Crítica da Teologia ou Teoria de Deus)
3. A concepção filosófico-científica do mundo (Ontologia ou Teoria do Ser)
4. A quintessência do homem e suas necessidades básicas (Antropologia Filosófica ou Filosofia do Homem)
5. A quintesséncia da sociedade e as condições necessárias para a criação de uma sociedade melhor e mais humana (Sociologia Filosófica ou Filosofia da Sociedade)
6-O sentido da vida, o destino da humanidade e o fim último do universo (Axiologia ou Escatologia) Como já efetuamos o estudo do processo do conhecimento da verdade num livro anterior (O Problema da Verdade), o presente livro tratará dos vários mitos e dogmas que dificultam o conhecimento da verdade. Nele daremos unia exposição da concepção religiosa das coisas, da origem e evolução das religiões e uma interpretação filosófico-científica da cosmovisão religiosa.

O livro seguinte será dedicado à concepção filosófico-científica do mundo e à origem e evolução das coisas (cosmos, vida, homem, sociedade e pensamento), do ponto de vista da ciência contemporânea.

Nesse plano, este livro é uma continuação natural do livro anterior, e, junto com ele, constitui uma preparação para os livros que virão em seguida.

No próximo livro do ciclo estudaremos a quintessência do ser humano, isto é, as diferentes teorias sobre a natureza humana e as necessidades básicas do ser humano.

No seguinte estudaremos a quintessência da sociedade e as condições necessárias para a criação de uma sociedade melhor, mais democrática e mais humana.
Só depois de ter efetuado todos esses estudos científicos, é que estaremos em condições de responder, mais adequadamente, às mais importantes questões existenciais acima referidas.

Embora todos esses trabalhos façam parte de um mesmo ciclo, que agrupamos sob o título "Por uma sociedade mais humana", cada um deles tem sua autonomia própria e poderá ser lido independentemente dos outros, sem prejuízo de sua compreensibilidade.




Advertência

Este livro sobre a Religião não é destinado nem a crentes nem a ateus. Estes não precisam lê-lo e àqueles não adianta lê-lo, pois a coisa mais difícil do mundo é demover as crenças.

Como escreveu muito bem Marie Bonaparte: "Tudo na Natureza demonstra para o crente a presença de Deus: tudo, para o descrente, sua ausência" (Cit. por Paulo Foulquié - Raymon Saint-Jean Dictionnaire dela Langue Philosophique, Paris, PUF. 1962, p. 176). "Aqueles que crêem num Deus, pensam eles tão apaixonadamente quanto nós, que não cremos nele, em sua ausência?" (J. Rostand, Pensamentos de um biólogo, p. 130. Cit. por Foulquié e Saint-Jean, op. cit. p. 176).

O presente livro é destinado sobretudo àqueles que estão na dúvida, que oscilam entre a crença e a descrença num criador, entre o ateísmo e o ateísmo, àqueles que têm curiosidade e interesse em conhecer a concepção filosófico-científica a respeito do verdadeiro criador. Esses poderão tirar algum proveito para dirimir suas dúvidas, embora sua leitura também possa ser útil aos crentes, agnósticos e ateus.

Ao fazer esta análise filosófico-científica da religião queremos advertir os leitores crentes que não pretendemos convencê-los a abandonarem suas crenças. E direito inalienável de cada pessoa acreditar no que quiser Ninguém é obrigado a abandonar seus ídolos, mitos e dogmas, que lhe são tão caros, "os óculos coloridos do espírito", através dos quais vê o mundo.

Aliás, nos capítulos finais do livro, mostraremos que, para certas camadas da população, a concepção religiosa é, por enquanto, necessária e útil, por várias razões.

Nosso objetivo principal é mais filosófico e científico: mostrar o que há por trás das crenças religiosas, que coisas reais elas simbolizam.

Entrementes, queremos frisar que se quisermos compreender as coisas tais quais são na realidade, se quisermos vencer na vida e sermos úteis à sociedade em que vivemos, se quisermos criar uma sociedade melhor, mais justa, mais democrática e mais humana, temos que nos livrar de idéias errôneas e de modos de pensar infrutíferos, a fim de adquirir idéias verdadeiras e modos de pensar frutíferos, pois só as teses comprovadas poderão dar uma concepção real e científica das coisas e, portanto, uma arma ideológica para transformar, para melhor, o mundo e a sociedade em que vivemos.

Assim, como é necessário limpar o terreno, extirpando as ervas inúteis e daninhas para que uma planta possa florescer e dar frutos saudáveis, do mesmo modo é necessário "limpar" a mente, "extirpando" as idéias errôneas e daninhas, para que nosso pensamento possa florescer em toda a sua pujança e dar "frutos" saudáveis e abun-dantes em benefício de nós e de toda a humanidade.




Introdução

Os mitos e dogmas ainda presentes
"A crítica da religião é a condição preliminar de toda a crítica" - Marx


Toda e qualquer teoria sobre a natureza das coisas, sobretudo do homem e da sociedade, parte, implícita ou explicitamente, de uma teoria sobre a natureza do Universo, isto é, de uma concepção do mundo, que nada mais é, por definição, que a própria filosofia. Sem essa base filosófica é impossível uma antropologia e sociologia ou qualquer outra ciência social.

Ora, para se ter uma concepção científica sobre o homem e a sociedade é necessário partir de uma concepção científica do Universo, pois premissas anticientíficas só podem levar a conseqüências anticientíficas.

O que tem dificultado, até agora, a compreensão científica do mundo e, conseqüentemente, a verdadeira natureza do homem e da sociedade são certos mitos e dogmas ainda existentes a respeito da origem e da essência do cosmos, da vida, do homem e da sociedade.

Nós estamos tão impregnados por idéias errôneas, a respeito de tudo e do todo, que a educação das pessoas no espírito científico consiste, antes de tudo, em libertar a mente humana de tais idéias. Só depois dessa higiene mental é possível acumular idéias verdadeiras e formar uma concepção científica do mundo e das coisas.
Vejamos brevemente alguns desses mitos, que são verdadeiros empecilhos gnosiológicos para uma concepção real e natural, isto é, científica, das coisas.
Como expusemos detalhadamente em obra anterior (O Problema da Verdade, São Paulo, Ed. Símbolo, 1980), o homem chamado primitivo, ignorando a causa real e natural dos fenômenos, devido ao seu atraso cultural, atribuía a causa dos mesmos a entidades imaginárias e fictícias – espíritos ou deuses. Daí nasceu a concepção mítico-teísta (ou religiosa) dos fenômenos naturais e humanos, presentes em quase todas as sociedades chamadas primitivas; vestígios dessa concepção podemos encontrar em todas as doutrinas filosóficas e sociais contemporâneas.
Vejamos em que consiste essa concepção (explicação, interpretação) mítico-teísta do mundo e alguns corolários que dela resultam:

Mitologismo. É a tendência a explicar tudo que existe e acontece pela mitologia. A mitologia é o estudo de mitos. A palavra mito (que vem do grego mythos) tem muitos sentidos afins, mas nós o empregamos no sentido etimológico e filosófico de fábula, lenda, ilusão, coisa imaginária e inventada.

Os mitos são representações fantásticas, alegóricas, imaginárias e irracionais, para explicar e generalizar os diferentes fenômenos da natureza e da vida social. É uma forma de pensamento oposta à do pensamento lógico, racional e científico. A mitologia é a concepção do homem primitivo e inculto sobre o mundo, sua gênese e evolução.

Teologismo. É a tendência a explicar tudo que existe e acontece pela teologia. A teologia é o estudo dos deuses, sua existência e natureza. Ela compreende o teísmo e a teolatria.

O Teísmo é a crença religiosa que admite a existência de vários deuses (politeísmo) ou de um único Deus (monoteísmo), ser supremo, pessoal, providencial, transcendental e sobrenatural, como causa primeira e criador de todas as coisas.

E a Teolatria é o culto ou a adoração desses deuses ou desse Deus único.
O teísmo considera todos os fenômenos como sendo o cumprimento da "vontade divina", como resultado da providência divina, que interviria na vida cotidiana dos homens e dirigiria todas as suas atividades.

Uma variante de teísmo é o deísmo, que também acredita na criação do mundo por um ser superior e transcendente (Deus), mas nega seu caráter providencial, isto é, a intervenção de Deus na natureza e nos negócios humanos.

Ao contrário do teísmo e do deísmo, o ateísmo é a teoria que nega toda e qualquer crença na existência de qualquer tipo de seres divinos e/ou sobrenaturais (espíritos, deuses), providenciais ou não, como criadores e condutores do Universo.

O ateísmo está intimamente ligado à concepção materialista do mundo, dispensa a idéia ou a crença em Deus, ou deuses, e procura explicar os fenômenos pelo determinismo natural, isto é, por causas reais e naturais, sem a intervenção de seres divinos e/ou sobrenaturais.

O ateísmo não exclui as virtudes morais próprias ao humanismo; ele recusa somente a intervenção de uma divina providência nos negócios humanos e conta somente com o próprio esforço, o trabalho e a vontade dos homens. Nesse plano, o ateísmo é o verdadeiro humanismo.

A mitologia está estreitamente ligada à religião. Toda mitologia tem elementos de religião, assim como toda religião tem elementos de mitologia, pois a religião é um sistema complexo de crenças (mitos e dogmas) e de cultos (ritos e cerimônias) relativos a seres divinos.

Pensando mais profundamente, a religião é, como a mitologia, um reflexo fantástico, na consciência dos homens, das forças externas naturais e sociais, que dominam os homens na sua vida cotidiana, reflexo esse no qual as forças terrestres tomam a forma de divindades não-terrestres ou extraterrestres (espíritos e deuses). Um bom exemplo são os cultos religiosos na mitologia politeísta dos antigos gregos e romanos, bem como na teologia do monoteísmo cristão.

Em geral as religiões politeístas se baseiam mais em mitos do que em dogmas, enquanto que as religiões monoteístas se baseiam mais em dogmas do que em mitos.
É muito difícil dizer onde termina o mito e começa o dogma, pois ambos são conceitos afins. Eis alguns exemplos de mitos e dogmas muito difundidos no Ocidente: o mito da criação do mundo em seis dias; o mito da criação de Adão e Eva; o mito do paraíso perdido; o mito do céu e do inferno; o mito do dilúvio universal; o mito da reencarnação dos espíritos; o mito da caverna (de Platão); o mito da Idade de Ouro; o mito do Eldorado, etc., etc. O dogma da existência de um Deus criador e providencial; o dogma da imortalidade da alma; o dogma do livre arbítrio, etc., etc.

Não confundir mito e dogma com verdade científica. Não confundir crença com ciência. São coisas diferentes e até opostas. O mito é uma representação alegórica das coisas em forma de símbolos e metáforas. O dogma é uma proposição fundamental de uma religião, admitida como verdadeira sem discussão e sem nenhuma prova.

Já a verdade científica é aceita como tal só depois de ter sido provada pela verificação experimental e/ou pela demonstração lógica.

As crenças míticas e teístas são representações ilusórias, irreais, errôneas, falsas, isto é, não-verdadeiras. São lendas e dogmas aceitos apenas na base da fé e impostas pelas autoridades religiosas, sem nenhuma prova de sua correspondência com a realidade, isto é, com a verdade.

O traço característico do dogma é a impossibilidade de provar sua verdade por meios científicos e racionais. E é justamente por causa disso que o dogma necessita ser imposto e aceito incondicionalmente apenas na base da fé, sem prova nenhuma, mesmo que seja absurdo.

Nesse sentido, dogma é o oposto da verdade científica. Credo quia absurdum ("Creio por ser absurdo") – já dizia Tertuliano – um apologista cristão. Ou como diz um amigo meu que é crente inveterado: "Acredito porque não compreendo". Para mostrar quão prejudicial é a sobrevivência da concepção teísta para a formação de uma concepção científica das coisas, vejamos algumas de suas funestas conseqüências.


Os corolários

Eis algumas conseqüências diretas ou indiretas da concepção teísta:

Criacionismo – Doutrina segundo a qual todas as coisas (o universo, a vida, o homem, a sociedade, o pensamento, etc) foram criadas e organizadas por deuses ou por um único Deus. Por oposição ao transformismo, o criacionismo afirma que todas as coisas, inclusive as espécies viventes, sobretudo o homem, foram criadas tais quais nós as conhecemos.

Providencialismo – Doutrina que tenta explicar tudo o que acontece no mundo pela intervenção da providência divina.

A providência seria a ação pela qual Deus, com suprema sabedoria, dirigiria o curso de todos os acontecimentos e interviria no destino dos homens. Tudo acontece de acordo com a vontade divina, que determina para cada criatura e para todo o universo o fim a seguir.

O providencialismo, característica da religião cristã, toma na religião maometana a forma extrema de fatalismo.

O fatalismo é a doutrina segundo a qual todos os acontecimentos do universo e da vida humana são fatais, isto é, são prefixados e se produzem inevitavelmente, de modo que a vontade ou a inteligência do homem é impotente para alterar o curso desses acontecimentos. É o célebre "Mektup" ("Está Escrito") dos muçulmanos.

Finalismo ou Teleologismo – Uma vez que o homem e todas as coisas teriam sido criadas por um ser divino e providencial, elas teriam sido criadas com algum objetivo, para alguma finalidade.

Divinização do Homem – Como o homem teria sido criado à imagem e semelhança de um Deus criador, ele teria uma origem e essência divina.

Divinização da Sociedade e do Estado – Como os homens, também a família e a propriedade, as sociedades e o Estado, assim como os seus governantes (reis, monarcas, etc.), teriam uma origem divina.

Fideismo – Doutrina que coloca a fé e a crença acima da razão e da ciência, e fundamenta a verdade apenas em exigências irracionais, sentimentais e morais. "Creio por ser absurdo" – dizem os adeptos do fideismo.
Irracionalismo – Doutrina que afirma ser o conhecimento das coisas inacessível à razão, ao pensamento, à ciência, por considerar impossível exprimi-las em conceitos lógicos. Por isso preconiza a superioridade do instinto, da intuição, do sentimento, da vontade e das faculdades não-conscientes e não-racionais, isto é, irracionais.

Misticismo – Doutrina baseada mais na fé, no sentimento, na intuição e na imaginação do que na razão e na experiência sensível, e que supõe possível, pela contemplação e pelo êxtase, entrar em contato direto com os seres divinos, terrestres ou extraterrestres.

Espiritualismo ou Idealismo (filosófico) – Como o princípio criador seria de natureza não material, mas espiritual, a origem de todas as coisas deveria ser procurada não na matéria, mas no espírito. Logo, o Espírito Absoluto ou a Idéia Absoluta seria primária e a matéria, secundária, isto é, o mundo material seria produto do Espírito ou da Idéia Absoluta, que, afinal, acaba se identificando com a idéia ou o espírito de Deus.

Dogmatismo – Tendência a aceitar algo como verdade absoluta, imutável, eterna, sem nenhuma prova, nem crítica prévia. Doutrina fundamentada em dogmas, aceitos na base somente da fé, sem a participação crítica da razão e da prova científica.

Visão metafísica, isto é, estática das coisas – Já que todas as coisas, os homens e os valores teriam sido criados por um ser superior, tais quais são, de uma vez para sempre, elas são encaradas como isoladas, fixas, estáticas, imutáveis, absolutas, sem levar em consideração o caráter mutável, interativo, dialético, relativo e historicista das coisas e dos valores sociais.


As projeções psicológicas

Cumpre observar que na origem de todas essas crenças mítico-teístas encontramos certas projeções psicológicas não-conscientes (subconscientes ou inconscientes), inerentes ao espírito humano, sobretudo na fase inicial de seu desenvolvimento, tais como o participialismo, fetichismo, animismo, antropomorfismo e antropocentrismo – projeções típicas da mentalidade primitiva e também da mentalidade infantil. Aliás, indo ao fundo da questão, e antecipando o resultado de nossa pesquisa, podemos dizer que todas as crenças mítico-teístas não passam de encarnações e transformações das forças naturais, humanas e sociais em forças ou entidades divinizadas e sobrenaturais. Vejamos em que consistem essas projeções:

Participialismo – Modo de sentir e pensar do homem primitivo e da criança (e cujos vestígios podemos encontrar em todos os espíritos adultos), segundo o qual o sujeito tem o sentimento de participação, comunhão, parentesco e até mesmo de identidade dele próprio com todos os seres animados e inanimados.

Por exemplo, o primitivo sente que é, simultaneamente, ele mesmo e o seu totem. Os índios bororos do Brasil se consideram ao mesmo tempo araras (espécie de papagaio, que é o totem da tribo).

No fundo do participialismo existe o sentimento não-consciente da origem comum de todas as coisas, de que nós somos feitos da mesma substância da qual são feitas todas as coisas da natureza viva e não-viva.

Fetichismo – Crença de que certos objetos e seres vivos têm dentro de si um poder mágico e oculto de fazer o bem ou o mal.

É a fase mais primitiva da mentalidade humana, quando o homem atribui a causa dos fenômenos a poderes que os objetos ou seres vivos teriam dentro de si. Por exemplo, o poder mágico dos fetiches, amuletos, talismãs, figas, pé de coelho, ferradura, astros, números, nomes, etc.

Animismo – Crença, segundo a qual a natureza é regida por almas, por espíritos ou por vontades análogas à vontade humana. Segundo essa crença, todo objeto oculta um espírito invisível que o governa. Daí as noções primitivas de espíritos bons e maus, que é necessário atrair ou esconjurar por meio de preces, ritos e cerimônias de sacrifícios e oferendas, que variam, infinitamente, segundo as religiões e as sociedades, no tempo e no espaço. Essa animação das forças da natureza se encontra também na origem da feitiçaria, da magia, da mitologia politeísta e das diversas religiões monoteístas.

Antropomorfismo ou Personificação – Estado de espírito no qual o homem concebe todos os seres, sobretudo Deus, ou os deuses, segundo o modelo de sua própria natureza humana. Tendência a atribuir sentimentos, vontades e traços humanos a seres não-humanos, ou fictícios, criados pela imaginação do homem. O melhor exemplo é a representação dos deuses sob um aspecto humano.
O antropomorfismo está intimamente ligado ao animismo e se manifesta, em particular, na mitologia politeísta grega. Segundo um aforismo do filósofo grego Xenófanes (que viveu no séc. VI a.C.), se os bois e os leões pudessem pintar seus deuses, representá-los-iam sob o aspecto de bois e de leões, do mesmo modo que os homens criaram deuses à sua imagem.

Assim, não são os deuses que criaram os homens à sua imagem e semelhança, mas, ao contrário, foram os homens que criaram os deuses à sua imagem e semelhança.

Antropocentrismo – Tendência ou estado de espírito no qual o homem se considera a si mesmo como o centro do Universo e supõe que o mundo foi feito para ele. É a ingênua crença das doutrinas finalistas (teleológicas) que admitem que todas as coisas foram criadas por Deus para propiciar a vida humana.

Ligados ao antropocentrismo, temos o Geocentrismo e o Teocentrismo que consideram, respectivamente, a Terra e Deus como o centro do Universo.
No fundo, todas essas projeções são produtos e formas do egocentrismo inerente a todos os homens, sobretudo na fase primitiva e infantil de sua evolução.

Os mitos e dogmas acima enumerados impregnam, em maior ou menor grau, todas as doutrinas religiosas, bem como as doutrinas semi-religiosas tais como teosofia, ocultismo, esoterismo, espiritualismo, zen-budismo, cabala, numerologia, astrologia, as para-ciências como a ufologia e a parapsicologia e, em parte, todas as filosofias espiritualistas e idealistas de todos os tempos.

Mas, onde todos esses mitos, dogmas e seus corolários melhor se manifestam é nas religiões criacionistas, sobretudo na religião judaica-cristã-maometana. Na verdade, eles são uma conseqüência dessa concepção religiosa criacionista.

Por isso, seria interessante fazer uma análise filosófica e sociológica, ainda que breve, da essência, da origem e da evolução da mentalidade religiosa, em geral, e, em particular, da religião criacionista, que é a mais elaborada e divulgada nos países ocidentais.

Existe uma opinião bastante difundida entre os pensadores idealistas e religiosos que certas categorias como a religião, a intuição, o amor, e outras, não podem ser analisadas pelos métodos racionais e científicos.

Nós não estamos de acordo com tal idéia preconceituosa. Tanto que em nosso livro O Problema da Verdade (3ª parte) fizemos, com sucesso, a análise científica da intuição. Agora, neste trabalho, fazemos uma análise filosófico-científica de religião. (Num trabalho futuro, pretendemos fazer uma análise científica do amor). Não pretendemos fazer uma análise detalhada e exaustiva de todas as crenças religiosas (isso demandaria escrever vários livros volumosos, o que está fora de nosso escopo), mas apenas uma análise, em profundidade, de alguns aspectos mais importantes da cosmovisão religiosa, sobretudo da idéia de Deus.

Quem quiser ter uma informação mais detalhada poderá estudar os livros da Bibliografia que segue no fim deste trabalho, bem como inúmeros outros livros que existem sobre o assunto.

***

Para facilitar o estudo do leitor, incluímos várias citações de diferentes autores e fontes sobre o assunto tratado.

Entrementes, a abordagem e análise filosófico-científica que fazemos de várias crenças religiosas, sobretudo da idéia de Deus, são inteiramente originais e não se encontram em nenhum livro sobre o assunto.

Levando em consideração a abordagem original do tema, e a fim de facilitar a compreensibilidade de certas passagens difíceis e conferir uma continuidade lógica à exposição, recorremos a reiterações de certas teses essenciais, embora em termos diferentes.



Tábua geral da matéria

Sobre o autor...IX
Dedicatória...XIII
Agradecimentos...XV
Epigrafes...XVII
Prólogo - Por uma sociedade mais humana...XIX
Advertência...XXIII
Introdução - Os mitos e dogmas ainda presentes...XXV


1ª parte - A origem e evolução da mentalidade religiosa...35

Capítulo I - As religiões atuais e seus adeptos...37
1 - Observações quanto à classificação das religiões...39
2 - Observações quanto ao número dos adeptos...41

Capítulo II - O que é a religião (A essência da religião)...45
1 - Conceitos e definições de religião...46
2 - A essência da religião e suas diversas formas...49
3 - Os elementos essenciais da religião...49

Capítulo III - A origem das religiões (ou da mentalidade
religiosa)...51
1 - Duas categorias fundamentais de religiões...51
2 - Hipóteses sobre a origem das religiões...53
2.1 - Hipótese teológica ou sobrenatural...53
2.2 - Hipótese metafísica ou idealista...54
2.3 - Teoria sociológica...54
2.4 - Teoria antropológica...54
3 - As teorias sociológicas e antropológicas...56
3.1 - A teoria do fetichismo...56
3.2 - A lei dos três estados de Comte...57
3.3 - A teoria do animismo...62
3.4 - A teoria do mána...64
3.5 - A teoria do totemismo...67
a) O totem...68
b) Os churingas...69
c) O tabu...71
d) As raízes econômicas dos totens e tabus...71
e) As origens das crenças em alma, espíritos,
Deus e reencarnação...72
3.6 - Observações críticas...73

Capítulo IV - A evolução da mentalidade religiosa
Do Pan-animismo ao Politeísmo e Monoteísmo...77
1 - Do período a-religioso à crença no mána...78
2 - A gênese dos deuses...82
As etapas do processo de transformação do mána
em Deus...82
3 - A origem e o objetivo do culto religioso...87
3.1 - A origem do culto religioso...87
3.2 - O objetivo do culto religioso...89


2ª parte - Interpretação crítica da cosmovisão religiosa...91

Capítulo V - Análise do conceito de Deus e de seus
atributos...93
1 - A origem da palavra Deus...93
2 - A idéia de criador na mitologia grega...94
3 - A idéia de Daimon, de Demiurgo e de Logos...96
3.1 - Daimon...96
3.2 - Demiurgo...97
3.3 - O Logos...98
4 - Diferentes significados e atributos de Deus...98
5 - Os três aspectos fundamentais do conceito de Deus...102
5.1 - Como princípio ativo...102
5.2 - Como princípio substancial...102
Do Panteísmo ao Teismo...105
5.3 - Como princípio moral...106
Os crentes oportunistas...106
6 - O aspecto principal...107

Capítulo VI - Interpretação filosófico-científica do conceito
de Deus...111
1 - Deus como nome simbólico do princípio ativo da causalidade
e do auto-movimento material...111
2 - Dois casos exemplares...117
3 - A idéia da imortalidade da alma e do livre-arbítrio...121

Capítulo VII - As raízes da cosmovisão religiosa...125
1 - As raízes bio-psíquicas da religião...127
1.1 - O objetivo da religião...127
O medo de morrer e a ânsia de sobreviver...127
1.2 - O objetivo da prece: obter o que se deseja...130
1.3 - O testemunho da Bíblia...131
2 - As bases fisio-psicológicas...135
2.1 - Dois tipos básicos de personalidade: o artista e o
pensador...135
2.2 - O papel específico das artes, da filosofia e das ciência...139
2.3 - As causas culturais...141
3 - As raízes gnosiológicas...143
A entificação ou hipostasiação dos conceitos...143
4 - As raízes sociais...147
4.1 - A ignorância e incompreensão das leis sociais...148
Engels sobre a religião...149
4.2 - A exploração econômica e a opressão social...151
Lênin sobre a religião...151
4.3 - Os interesses econômicos-políticos das classes
dirigentes...152
O papel subserviente da Igreja
4.4 - O papel entorpecente e reacionário da religião...153
4.4.1 - A religião como ópio do povo...153
Marx sobre a religião...154
4.4.2 - A religião como inimigo da ciência e do
progresso...156

Capítulo VIII - As funções da religião...159
1 - Função teórico-filosófica...159
2 - Função prático-moral...159
3 - Função psicológica...160
4 - Função psicanalítica...161
5 - Função ideológica opressiva...161
6 - Função entorpecente e reacionária...161

Capítulo IX - As vantagens e desvantagens das religiões...163
1 - A necessidade das religiões para as massas incultas...163
2 - Do fracasso das religiões...165
3 - Moral religiosa e moral atéia...168

Capítulo X - O futuro das religiões e a religião do futuro...171
1 - O futuro das religiões...171
2 - A religião do futuro...172

Conclusão...177
Apêndice - Entrevista do autor sobre a superstição...183
Bibliografia...189



Bibliografia

A Bibliografia sobre a Concepção Religiosa do Mundo é enorme. Citamos apenas algumas das obras que, entre outras, foram consultadas para a elaboração deste trabalho:

AEGERTER, E. As grandes Religiões. São Paulo, DIFEL, 1966.
AFANASIEV, V. Fundamentos da Filosofia. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1968.
BAUDOUIN, Charles. Psychologie de la Suggestion et de l’Autossuggestion. Neuchatel (Suíça), 1924.
BENOIST, Luc. O Esoterismo. São Paulo, DIFEL, 1969.
BAZARIAN, Jacob. O Problema da Verdade. São Paulo, Ed. Símbolo, 1980.
BAZARIAN, Jacob. A Arte de Aprender e passar nos exames. São Paulo, Ed. Nobel, 1972.
BAZARIAN, Jacob. Considerações Filosóficas sobre a Sociedade Ideal, no livro do mesmo autor. "Mito e Realidade sobre a União Soviética". São Paulo, 1973.
BERGSON, Henri. As duas fontes da Moral e da Religião. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1978.
CALDERON, Ester. Religiões, Mitos e Crendices. Rio de Janeiro, 1935.
CALVEZ, Jean-Yves. O Pensamento de Karl Marx. Porto, Liv. Tavares Martins, 1962.
CHALLAYE, Felicien. Pequena História das Grandes Religiões. São Paulo, IBRASA, 1967.
CHALLAYE, Felicien. Pequena História das Grandes Filosofias. São Paulo, CEN, 1970.
CORNU, Daniel. Karl Barth - Teólogo da Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1971.
CUVILLIER, Armand. Sociologia da Cultura. Porto Alegre, Ed. Globo, 1975.
DEGLIN, Vadim. "Nossos dois cérebros". In "Correio" da UNESCO, março de 1976, nº 5.
DURKHEIM, Emile. Formes Elementaires de la Vie Religieuse.
ENCICLOPÉDIA FILOSÓFICA (em 5 volumes). Moscou, 1960-1970 (em russo).
ENGELS, F. Anti-Duhring. Moscou, 1950 (em russo).
ENGELS, F. L. Feuerbach e o fim da Filosofia Clássica Alemã. In "Textos de Marx e Engels", vol. I. São Paulo, Ed. Sociais, 1975.
FONTOURA, Amaral. Introdução à Sociologia. Porto Alegre, Ed. Globo, 1970.
GARD, Richard A. Budismo. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1964.
GARNIER, A.G. Teoria Unitária do Universo Bipolar. São Paulo, IBREX, 1977.
HAINCHELIN, Charles (Lucien Henri). As origens das Religiões. São Paulo, Ed. Hemus, 1971.
HAHODA, Gustav. A Psicologia da Superstição. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1970. JACOT, Louis. História Crítica do Pensamento. Rio de Janeiro, Ed. E.M. (em 4 tomos). KARISCH, Rudolf. Cristianismo e Materialismo Dialético, São Paulo, Ed. Herder, 1968.
KEESING, Feliz M. Antropologia Cultural, T. II. Rio de Janeiro, Ed. Fundo de Cultura, 1961.
LAO-TSE. Tao Te King. São Paulo, Fundação Alvorada.
LÊNIN, V.I. Cadernos Filosóficos. Moscou, 1947 (em russo).
LÊNIN, V.I. Socialismo e Religião. Moscou, 1952 (em russo).
LÊNIN, V.I. Marx, Engels, Marxisme. Moscou, 1947 (em francês).
LEPARGNEUR, Hubert. Teologia de Libertação. São Paulo, Ed. Convívio, 1979.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro, Ed. Tempo Brasileiro, 1970.
MARX, Karl. Capital. T. I.
MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1844), In A. Piettre, "Marxismo". Rio de Janeiro, Zahar, 1969.
MARX E ENGELS SOBRE A RELIGIÃO. Edições 70, Lisboa, 1976.
MITOLOGIA. São Paulo, Abril Cultural, 1973.
MITOLOGIES. Paris, Ed. Larousse, vol. I.
OHSAWA, Georges. A Filosofia da Medicina Oriental. Porto Alegre, 1970.
OSIPOV E KIRSANOVA. Humanidade e Ateísmo. São Paulo, Argumentos, 1968.
PAVIOLKIN, P. As Superstições Religiosas e seus Danos. Moscou, 1953 (em russo).
PECOTCHE, C.G. Curso de iniciação logosófica. São Paulo, Ed. Logosófica, 1975.
PIMENTA, Joaquim. Enciclopédia da Cultura, 2 vol. São Paulo, Ed. Freitas Bastos, 1963.
PROKOFIEV, V.I. A Origem da Religião e da Crença em Deus. Moscou, 1858 (em russo).
RIBEIRO, J. Vocabulário e Fabulário da Mitologia. São Paulo, Ed. Martins, 1962.
SHAPIRO, Harry L. Homem, Cultura e Sociedade. Rio de Janeiro, Ed. Fundo de Cultura, 1966.
SUKHOV, A.D. As Raízes gnosiológicas e sociais da Religião. Moscou, 1961 (em russo).
SIZUKI, Daisetz Teitaro. Introdução ao Zen-Budismo. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1971.
TELES, Antonio Xavier. Estudos Sociais. São Paulo, CEN, 1972.
TEXTOS BUDISTAS E ZEN-BUDISTAS, São Paulo, Ed. Cultrix, 1967.
TITIEV, Mischa. Introdução à Antropologia Cultural. Lisboa, Fundação Kalouste Gulbenkian, 1963.
VÁRIOS AUTORES. A Filosofia "Materialista" Chinesa. Porto Alegre, 1968.
VASCONCELOS SOBRINHO, J. Ciência, Religião sem Dogmas. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1973.
ZYBKOVETS, V.F. A Época pré-religiosa. Moscou, 1952 (em russo).




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