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— Se eu lhe respondo que nasci na Rússia, isto é pouco. Eu nasci e
passei a infância bem no centro da Rússia em seu ventre de terras negras.
Lá, na província de Tambov, há uma cidadezinha — Lebedian — outrora
famosa por suas feiras, ciganos, trapaceiros e sua linguagem solidamente
russa, perfumada como maçãs antonovkas. Não foi por acaso que Turguenev
e Tolstoi escreveram a respeito desta cidade.
Eu até hoje me lembro dos excêntricos incomparáveis, que esta terra
negra produziu: um coronel — Rafael culinário que preparava pratos
geniais; um sacerdote que escreveu um tratado sobre a vida doméstica do
diabo; um funcionário dos correios que ensinava a todos o idioma
esperanto e que tinha a certeza de que em Vênus — Les habitants
enériques — também falam em esperanto... Estes excêntricos dos anos
90 estão vivos até hoje. Não se espante, eles vivem em meu romance
Provinciano.
Desde o início dos anos 900 eu vivi em Peterburgo. Parece que que sempre
tive este traço de carácter, escolher la ligne de la plus resistance.
Pode ser que, justamente por isto eu escolhi a faculdade mais difícil na
École Polytechnique de Pétersbourg — a de construção naval. Em 1909 (1)
eu terminei esta faculdade e fiquei como agrégé na cátedra de construção
naval e a partir deste ano começou minha vida anfíbia...
—Acha estranha esta comparação?
Os anfíbios, como se sabe, têm vida dupla, respiração dupla: no ar e na
água. Em 1909 eu fiz simultaneamente meu projeto de navio para o diploma
e escrevi meu primeiro conto. Desde então eu vivo simultaneamente nestes
dois elementos. Aliás, eu me diferencio dos anfíbios por nunca ter
rastejado perante ninguém, e não ter vergonha de escrever o que me
parece verdade. Para curar me deste mau-hábito o governo tsarista deteve-me
como revolucionário na prisão de Peterburgo em 1906; nesta mesma prisão
de Peterburgo foi-me prescrito o mesmo tratamento também em 1922. Mas eu
temo que minha doença — heresia — é incurável. Um dos surtos desta
doença foi meu romance Nous autres, que vejo na sua mesa.
Críticos míopes viram neste livro nada mais do que um panfleto político.
Isto, é claro, é incorreto: este romance é um sinal do perigo, que parte
do poder hipertrofiado das máquinas e do poder do Estado — seja ele qual
for e que ameaça o homem, a humanidade. Os americanos, que há alguns
anos escreveram muito sobre a edição novaiorquina de meu romance, não
sem razão, viram neste espelho também o seu fordismo. É muito curioso
que em seu último romance o conhecido escritor inglês Huxley (2)
desenvolve quase as mesmas idéias e situações de enredo que
foram dadas em Nous autres. Drieu de la Rochelle contou-me nestes
dias que num encontro com Huxley ele perguntou se Huxley tinha lido
Nous autres. A coincidência, é claro, foi casual. Mas tal
coincidência indica que estas idéias estão em torno de nós, neste ar
pré-tempestuoso que respiramos.
—Outros trabalhos meus? Ei-los: mais seis livros de prosa, seis peças de
teatro e seis... quebra-gelos.
— Nomes? Do que — dos livros ou dos quebra-gelos? Comecemos pelos
quebra-gelos. Eu construí quebra-gelos na Inglaterra durante a guerra.
Minha construção melhor e preferida é o quebra-gelos "Lênin" de
1916-1917, no estaleiro Armstrong. Naquela época eu não suspeitava de
que construía um navio com nome tão altissonante: então o quebra-gelos
chamava-se "Santo Alexander Nevsky", e somente depois da revolução ele
se arrependeu e mudou de nome. É um dos nossos maiores quebra-gelos, um
pouco menor do que o "Krassin", porém tem construção mais aperfeiçoada.
Recentemente diferentes jornais alemães, americanos e tchecos atribuíram-me
o título de construtor do "Krassin". Isto não é bem assim. Eu fui apenas
consultor na construção do "Krassin"— que foi construído também na
Inglaterra simultaneamente com o "Lênin".
Uma conseqüência desagradável de minha estada de dois anos na Inglaterra
foi minha novela Ilhéus — desagradável para os ingleses: eles se
ofenderam tanto com esta novela que na Inglaterra foi impossível traduzi-la
e publicá-la. Outro meu romance — Au bout du monde publicado na
Rússia durante a guerra, pareceu ofensivo para a censura tsarista: a
revista que publicou este romance foi confiscada e o livro só saiu
depois da revolução. Como vê a profissão de herege é muito difícil,
sobretudo em nossa época, em que se exige que o herege não apenas
renuncie a seus equívocos, mas também prove imediatamente na pratica que
estava errado. Imagine a situação de Galileu que teria de provar que
estava errado, isto é, que a Terra não gira! O velho agora estaria numa
situação sem saída.
— Não, não esqueci de minhas peças: simplesmente em nossa conversa
imiscuiu-se uma terceira pessoa — Galileu. É sobretudo difícil para mim
esquecer das peças, por que nos últimos anos eu me dediquei mais ao
teatro. E depois, se pelos menos uma vez vimos o público no teatro
emocionado com nossa peça, nunca mais esquecemos disto. Sobretudo se
isto ocorre agora na Rússia onde ao teatro vai não o público, mas o povo,
para o qual só agora abriram-se as portas do teatro, e que tem uma
percepção especialmente nova e viva.
De minhas peças duas foram concluídas recentemente e não tive tempo de
montá-las antes de viajar ao exterior, uma peça tem problemas com a
censura (3) e três peças foram apresentadas nos maiores teatros de
Moscou, Leningrado e província. As comédias
Sociedade dos tocadores de carrilhão honorários e
A Pulga foram as melhores, na minha opinião. "Os tocadores de
carrilhão é uma sátira à sociedade inglesa contemporânea, e, como dizem,
uma sátira muito mordaz. Pela primeira vez esta peça foi apresentada no
palco do antigo teatro Mikhailovsky de Peterburgo, mas, acho que ela
foi-melhor representada no Teatro Dramático Russo de Riga, onde esteve
por várias temporadas seguidas. A Pulga é uma peça no estilo de
comédia popular — ou se quiserem — da commedia dell'arte italiana. Esta
peça foi apresentada em 1926 pelo Teatro Artístico de Moscou e desde
então está lá pela sexta temporada já. Ambas estas peças foram
traduzidas para o francês, e estou em conversações sobre sua
apresentação em teatros parisienses (4). Está sendo traduzida para o
francês uma de minhas peças Le delegue d'Afrique — uma farsa em
três atos sobre a vida soviética.
Quais são agora os grupos literários mais influentes na Rússia? Depende
de que influência falar. A maior influência — isto é poder — está em
mãos dos chamados "escritores proletários, que seguem a ideologia
oficial do partido comunista e, por isso, praticamente têm o direito ao
monopólio da crítica literária — uma arma séria. Além dos talentos
militares, alguns dos membros desse grupo têm, sem dúvida nenhuma,
talentos civil e literário. Se quiser nomes eu posso citar-lhe o
dramaturgo Afinoguenov, os romancistas Cholokhv, Lavrukhin e Fadeev. Mas,
a maioria dos membros deste grupo trabalha ainda segundo os métodos do
naturalismo de antes da revolução. No campo da forma literária avançaram
muito mais os autores dentre os chamados "simpatizantes" — "les
compagnons" e no sentido literário, naturalmente, eles exercem
influência sobre seus vizinhos proletários. Entre os "simpatizantes"o
grupo mais interessante e vivo é "Os irmão de Serapião" (V. Ivanov,
Fedin, Tikhonov, Kaverin, Zochenko, Slonimski e outros) É agradável para
mim assinalar que quase todos eles aprenderam comigo a técnica de nossa
profissão: em 1919-1922 junto à Dom Iskusstv de Peterburgo havia um
estúdio literário, onde eu dava aulas de técnica da prosa artística.
Neste estúdio surgiram os "Irmãos de Serapião", e eu fui seu obstetra
literário. Como vê, eu tenho mais uma profissão. Além dos "Irmãos de
Serapião", passaram pelo gabinete do meu apartamento de Leningrado
muitos e muitos outros jovens escritores.
Qual a situação dos escritores agora na Rússia?
Oh! Lá zelam por eles mais do que em outros países. Pagam-lhes mais,
eles recebem muito boa "ration quotidien de vivres et pour comble —
ration quotidienne ideologique. Aqui na Europa, parece que há muitos
escritores "ayants mil fois" lá temos muitos antípodas:
ecrivains n'ayant nul doutes. Esta é, provavelmente, uma condição
muito feliz.
Sans blagues? Mas eu falo sério, pelo menos em relação ao grande
grupo de escritores que assimilaram total e sinceramente a ideologia
oficial. É muito mais difícil a situação dos "simpatizantes" — dos
escritores que não são membros do partido, em sua maioria saídos do meio
intelectual. Muitos deles agora têm de mudar radicalmente sua psicologia,
seus gostos, como dizem entre nós "reestruturar-se". Para alguns isto é
muito fácil. Mas não os respeitam nem mesmo aqueles a quem eles servem,
eles recebem o apelido depreciativo de "oportunistas". Outros procuram
fazê-lo como sinceridade e para estes é um processo difícil, doloroso,
que termina às vezes tragicamente. O suicídio de Maiakovski — estou
convicto disto — foi um desenlace de tal tragédia. Ele era um grande
poeta, inovador, com grande arte formal e indubitável élan lírico. Ele
conscientemente cortou de si o lírico — "pisou na garganta da canção" (como
ele escreveu em um de seus últimos versos) para se tornar um poeta
político. Esta cruel intervenção cirúrgica custou-lhe muito caro. A
história de amor (que em sua vida foram muitas) podia, naturalmente, ter
sido apenas pretexto, mas não causa de sua morte.
(1) Evidentemente é um erro, o correto é 1908.
(2) Trata-se do romance de A. Huxley Admirável Mundo Novo. Drieu
de la Rochelle (1893—1945) — escritor francês, amigo comum de A. Huxley
e E. Zamiatin.
(3) Trata-se da tragédia Átila.
(4) Em vida de E. Zamiatin estas peças não foram apresentadas em teatros
parisienses.
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AUTOBIOGRAFIA — 1929
Avtobiografii, In Izbrannie proizvedenie v dvukh tomakh, tom 1,
str.31—38, Izd. Khudojestvennaia Literatura, Moskva, 1990.
Autobiografia, In Obras escolhidas de Zamiatin E. I. em dois
volumes, publicadas em 1990 pela editora Literatura Artística, Vol.1,
pp. 31—38.
Traduzido do russo por Clarice Lima Averina
Como buracos numa cortina escura fechada — instantes da minha primeira
infância.
A sala de jantar, a mesa coberta com oleado e, na mesa, um prato com
algo estranho, branco, brilhante e, maravilha, aquela coisa branca
desaparece de repente, não se sabe para onde foi. No prato havia um
pedaço do universo desconhecido, exterior, de fora do quarto: trouxeram
neve no prato para me mostrar, e esta neve incrível ficou-me até hoje na
memória.
Na mesma sala de jantar. Alguém tem-me ao colo diante da janela e lá
fora, entre as árvores a esfera vermelha do sol escurece, eu sinto que é
o fim e o mais terrível de tudo é que minha mãe ainda não voltou de
algum lugar. Depois eu soube que esse alguém era a minha avó e que neste
segundo eu estive à beira da morte — tinha então um ano e meio.
Mais tarde, tinha dois ou três anos. Pela primeira vez eu via muitas
pessoas, uma multidão. Foi em Zadonsk: meu pai e minha mãe foram lá de
carroça e levaram-me. A igreja, a fumaça azul, cânticos, luzes, um
epilético a latir como um cão, um nó na garganta. Eis que tudo terminou,
empurrões, sou levado pela multidão para fora e fico só na multidão: meu
pai e minha mãe não estão lá e nunca mais estarão, estou só para sempre.
Sento-me num túmulo qualquer ao sol e choro amargamente. Vivi uma hora
só no mundo.
Em Voronej. O rio, uma banheira incomum, estranha para mim e dentro dela
(depois lembrar-me-ia disto quando vi ursos brancos em lagos) banha-se
um enorme corpo feminino rosado e volumoso — é a tia de minha mãe. Fico
curioso e com um pouco de medo: pela primeira vez entendo o que é uma
mulher.
Espero à janela, olho a rua vazia, com galinhas mergulhadas na poeira. E
finalmente chega nosso tarantás (3), que traz meu pai do ginásio, ele
está em cima de um assento grotescamente alto, com a bengala entre os
joelhos. Espero o almoço com o coração apertado, mesa abro solenemente o
jornal e leio em voz alta as enormes letras "O Filho da Pátria". Eu já
conheço esta coisa misteriosa — as letras. Tenho uns quatro anos.
Verão. Cheiro de remédios. De repente minha mãe e minha tia fecham
apressadamente a janela, trancam a porta da varanda e com o nariz colado
ao vidro vejo: vão levá-los. Um cocheiro com bata branca, a carroça
coberta com pano branco, e debaixo do pano pessoas encolhidas a mover
pernas e braços: doentes de cólera. O isolamento dos doentes de cólera
era na nossa rua, ao lado de nossa casa. Meu coração palpita. Eu sei o
que é a morte. Tenho cinco, seis anos.
E, finalmente, uma manhã de agosto suave diáfana. O bater distante e
transparente dos sinos do mosteiro. Passo ao lado do jardinzinho diante
de nossa casa e sem olhar eu sei: a janela está aberta e olham para mim
— minha mãe, avó e irmã. Porque eu, pela primeira vez, vesti calças
compridas — "para sair" — e um blusão do uniforme do ginásio, levo uma
mochila às costas, vou pela primeira vez ao ginásio. Ao meu encontro o
aguadeiro Izmachka agita-se em cima de seu barril e várias vezes olha
para mim. Estou orgulhoso. Sou grande. Tenho mais de 8 anos.
Tudo isto entre os campos de Tambov, em Lebedian uma cidade famosa por
seus trapaceiros, ciganos, feiras de cavalos, e sua linguagem
solidamente russa, sobre a qual escreveram Tolstoy e Turguenev. De 1884
a 1894.
• • •
Adiante o ginásio, cinzento como o pano do uniforme. De vez em quando
sobre o cinza uma maravilhosa bandeira vermelha. A bandeira vermelha era
colocada na torre de vigilância dos bombeiros e então não significava
absolutamente a revolução social e sim o frio de 20 graus negativos.
Aliás, esta era a revolução de um dia na vida entediante e programada do
ginásio.
A lanterna céptica de Diógenes aos doze anos. A "lanterna" (1) foi acesa
por um grandalhão da segunda série e — azul, roxa, vermelha — ficou
acesa debaixo de meu olho esquerdo por duas semanas inteiras. Eu rezei
para que a "lanterna" se apagasse. O milagre não ocorreu. Comecei a
refletir.
Muita solidão, muitos livros, Dostoevsky desde cedo. Até hoje lembro do
tremor e faces afogueadas por causa de "Nietotchka Niezvanova".
Dostoevsky permaneceria por muito tempo como o mais respeitável e até
mesmo temível. Gogol era um amigo (muito mais tarde Anatole France
passou a sê-lo também).
A partir de 1986 — o ginásio em Voronej. Minha especialidade, que todos
conheciam, era redação em russo. A especialidade, que ninguém conhecia,
todas as experiências possíveis sobre mim próprio — para me "temperar".
Lembro-me que na sétima série, na primavera, fui mordido por um cão
raivoso. Peguei um manual de medicina qualquer e li que o período comum
antes do aparecimento dos sintomas da raiva era de duas semanas. E
decidi esperar esse prazo, para ver se tinha ou não pegado raiva — para
testar o destino e a mim próprio. Durante essas duas semanas escrevi um
diário (o único na vida). Duas semanas depois, não ficara raivoso e
comuniquei o fato à direção, que me enviou imediatamente a Moscou para
tomar a vacina de Pasteur. Minha experiência terminou bem. Mais tarde,
uns dez anos depois, durante as noites brancas de Peterburgo, quando
fiquei louco de amor — fiz a experiência com mais seriedade, mas não com
mais inteligência.
Deixei o pano cinza do ginásio em 1902. A medalha de ouro foi empenhada
por 25 rublos numa casa de penhores em Peterburgo e lá ficou.
Lembro-me do último dia no gabinete do inspetor ("da égua" segundo a
hierarquia do ginásio) os óculos na testa, puxando as calças para cima (suas
calças viviam caindo) estendeu-me uma brochura. Li a dedicatória: "À
minha alma mater da qual só tenho más recordações. P. E. Shegoliev". E o
inspetor sentencioso, fanhoso, acentuando a letra "o" (2): "Isso é bom?
Também terminou o ginásio com medalha e o que escreve? Está na prisão?
Meu conselho: não escreva, não siga este caminho". A lição não ajudou.
• • •
Peterburgo, início dos anos 1900 — Peterburgo de Komissarjevskaia,
Leonid
Andreev, Witte, Plevé, trotadores cobertos de rede azul, bondes, puxados
a cavalo, estudantes de uniforme e espada e estudantes com paletó azuis
de botões do lado. Eu estudava na escola Politécnica, era um daqueles de
paletó com botões do lado.
Num domingo branco de inverno na avenida Nevski — multidões escuras e
lentas esperavam alguma coisa. A torre da Duma rege a multidão, que não
tira os olhos do regente. E quando foi dado o sinal — uma explosão à uma
da tarde, na avenida de todos os lados manchas humanas, farrapos da
Marselhesa, bandeiras vermelhas, cossacos, garis, policiais. A primeira,
para mim, manifestação de 1903. E quanto mais se aproxima 1905 mais
febril é o movimento, as reuniões mais ruidosas.
No verão, estágio nas fábricas, a Rússia, os vagões fanfarrões e alegres
de terceira classe. Sevastopol, Nijni, as fábricas da região do Kama,
Odessa, porto, os maltrapilhos.
Verão de 1905, especialmente azul, multicolor, cheio de gente e de
acontecimentos. Eu fazia um estágio no navio "Rossia", que ia de Odessa
a Alexandria. Constantinopla, mesquitas, derviches, bazares, o cais de
mármore branco de Esmirna, beduínos de Beirute, a ressaca branca de
Jaffa, Athos verde-negro, o pestilento Port Said, a África amarela e
branca, Alexandria, com policiais ingleses, vendedores de crocodilos
empalhados, o famoso Tartuch. Singular, isolada de tudo, a incrível
Jerusalém, onde passei uma semana na casa de um árabe conhecido.
Ao retornar a Odessa — a epopéia do motim no "Potemkin". Com o
maquinista do "Rossia", empurrado, pisado, embriagado pela multidão,
vaguei no porto todo o dia e a noite inteira, no meio dos disparos,
incêndios e pogroms.
Naqueles anos ser bolchevique significava seguir a linha da resistência
maior, e eu era então bolchevique. Era o outono de 1905, greves, a
avenida Nevski cheia de gente, varrida pelo projetor do almirantado, em
17 de outubro, comícios em estabelecimentos de ensino superior.
Certa vez em dezembro à noite veio ao meu quarto na travessa Loman um
amigo operário, com orelhas de abano, Nicolai V., com um saco de papel
daqueles de pãezinhos da Casa Filipov, no saquinho havia piroxilina. "Deixo
com você este saquinho porque os policiais estão atrás de mim" — "Pode
deixar". Até agora vejo o saco no parapeito da janela, ao lado de um
pacote de açúcar e de salame.
No dia seguinte, no quartel do bairro de Viborg no momento em que na
mesa estavam planos, parabelluns, mausers, a polícia, — éramos trinta
apanhados na ratoeira —, em meu quarto, à esquerda, no parapeito da
janela estava o saquinho de pães da Casa Filipov e panfletos debaixo da
cama.
Quando, revistados e espancados, fomos divididos em grupos, eu, junto
com outros quatro — fiquei ao lado da janela. Vi na rua, junto ao poste,
caras conhecidas, aproveitei um momento para lançar um bilhete pedindo
que retirassem do meu quarto e dos outros quatro tudo o que não devia
estar lá. Isto foi feito. Mas eu só soube disto mais tarde, então,
durante vários meses, na cela da Chpalernaia sonhei só com o saco de
pãezinhos da Casa Filipov no parapeito da janela à esquerda.
Na cela apaixonei-me, estudei taquigrafia, inglês e escrevi versos (isto
é inevitável). Na primavera de 1906 fui libertado e mandado para minha
terra natal.
Não suportei por muito tempo o silêncio, os sinos e os jardinzinhos de
Lebedian. No verão, sem autorização fui a Peterburgo, depois a
Helsingfors. Um quarto, que dava para a Erdoholmsgatan, e sob a minha
janela o mar, os rochedos. À noite, quando mal se viam os rostos,
realizavam-se comícios no granito cinza. De madrugada não se viam os
rostos, a pedra negra e quente parecia branda — porque ela estava ao
lado e os raios dos projetores de Sveaborg eram suaves.
Certa vez, nos banhos, um camarada nu apresentou-me um homenzinho nu, um
pouco barrigudo: o homenzinho barrigudo era Kok, o famoso capitão da
guarda vermelha. Alguns dias depois a guarda vermelha estava em armas,
mal se viam ainda no horizonte os contornos da esquadra de Kronstadt, os
esguichos das bombas de doze polegadas que explodiam na água, o
rimbombar cada vez mais fraco dos canhões de Sveaborg. E eu disfarçado,
escanhoado, com pince-nez, retorno a Peterburgo.
O parlamento no Estado. Pequenos estados dentro do estado —
estabelecimentos de ensino superior com seus parlamentos. Conselhos de
starostas. A luta dos partidos, propaganda eleitoral, cartazes,
panfletos, discursos, urnas. Eu era membro — temporariamente presidente
— do conselho de starostas.
Fui intimado a comparecer à delegacia. Na delegacia um papel verde
procura-se "o estudante universitário Evgueni Ivanov Zamiatin" para ser
banido de Peterburgo. Declaro honestamente que nunca estive na
universidade, e que no papel há com certeza um equívoco. Lembro-me do
nariz do comissário de polícia — um gancho, um ponto de interrogação:
"Hum...Temos de investigar". Enquanto isto eu mudei para outro bairro:
lá, seis meses depois, uma nova intimação, o papel verde, "estudante
universitário", ponto de interrogação e informações. E assim durante 5
anos, até 1911, quando finalmente o erro no papel verde foi corrigido e
expulsaram-me de Peterburgo.
• • •
Em 1908 terminei a faculdade de construção naval do Intituto Politécnico
e fui nomeado para a cadeira de arquitetura naval ( a partir de 1911 fui
professor dessa disciplina. Juntamente com o projeto de um navio com
torre blindada, estavam na minha mesa as páginas de meu primeiro conto,
que enviei à revista "Obrazovanie", que era redigida por Ostrogorski. A
secção de letras era coordenada por Artsibachev. No outono de 1908 o
conto foi publicado. Quando me encontro agora com pessoas que leram esse
conto, sinto-me tão embaraçado como quando encontro uma das minhas tias,
cujo vestido molhei publicamente, quando tinha dois anos de idade.
Nos três anos seguintes — navios, arquitetura naval, régua de logaritmos,
esboços, construções, artigos especiais nas revistas "Teplokhod" "Russkoe
Sudovodstvo", "Isvestia Politekhnitcheskogo Instituta". Muitas viagens
de trabalho por toda a Rússia: o Volga até Tsaritsin, Astrakhan, Kama,
região de Donetsk, Mar Cáspio, Arkhanguelsk, Murman, Cáucaso e Criméia.
Nestes anos, entre esboços e número — alguns contos, que não dei para
imprimir, em cada um deles eu sentia que havia ali algo que não
correspondia. Encontrei o que faltava em 1911. Neste ano as noites
brancas foram incríveis, havia muito branco e muito escuro. Nesse ano
tive o exílio, uma doença grave e meus nervos cederam, Inicialmente vivi
numa casa de campo vazia em Sestroretsk, depois, no inverno, vivi em
Lakhta. Ali — a neve, solidão, silêncio — escrevi "Provinciana",
aproximei-me do grupo "Zaveti" de Remizov, Prichvin, Ivanov-Razumnik.
Em 1913, tricentenário da dinastia Romanov, obtive o direito de viver em
Peterburgo. Agora eram os médicos que me mandavam embora de Peterburgo.
Fui para Nicolaev, construí lá algumas escavadoras, escrevi alguns
contos e a novela "Nos cafundós do Judas". A revista Zaveti que a
publicou foi censurada e apreendida, a redação e o autor foram chamados
à responsabilidade penal. Julgaram pouco antes da revolução de fevereiro
e absolveram.
O inverno de 1915-1916 novamente tempestuoso e febril terminou com
desafio para um duelo em janeiro e em março partida para a Inglaterra.
Até então no Ocidente estivera apenas na Alemanha, Berlim pareceu-me
condensada — 80% de Peterburgo. Na Inglaterra foi diferente: tão novo e
tão estranho como em outros tempos em Alexandria , em Jerusalém.
Ali inicialmente o ferro, máquinas, esboços: construí quebra-gelos em
Glasgow, New Castle, Senderland, Sowsheeds (aliás um dos maiores
quebra-gelos é o "Lênin"). Os alemães lançam bombas de zeppelins e
aeroplanos. Eu escrevi Os Ilhéus.
Quando nos jornais apareceram em letras grandes Revolution in Rússia,
Abdication of Russian Tzar, não agüentei mais ficar na Inglaterra
e em setembro de 1917, a bordo de um velho naviozinho inglês (se os
alemães o afundassem, não se perdia muito), eu voltei para a Rússia.
Navegamos durante muito tempo até Bergen, umas cinqüenta horas, com as
luzes apagadas, com coletes salva-vidas e chalupas prontas.
Inverno alegre e terrível de 1917—1918, quando tudo se moveu, se perdeu
no desconhecido. Navios, casas, fuzilamentos, buscas, plantões noturnos,
comitês de bairro. Mais tarde, ruas sem bonde, longas filas de pessoas
com sacos, dezenas de verstas por dia, burjuikas (4) arenques, aveia
moída em moinho de café. E ao lado da aveia mirabolantes planos de
publicar todos os clássicos de todos os tempos e todos os povos, unir
todos os representantes de todas as artes, apresentar no teatro toda a
história de todo o mundo. Não havia tempo para desenhos técnicos, a
técnica prática secou e caiu de mim como uma folha amarela (da técnica
restou apenas o ensino no Instituto Politécnico). Simultaneamente , um
curso de literatura russa contemporânea no Instituto de Pedagogia
Guertsen (1920-1921) um curso de técnica de prosa artística no Estúdio
da Casa de Artes, trabalhava no conselho de redação da "Literatura
Universal", na direção da União Russa de Escritores, no Comitê da Casa
dos Literatos, no Conselho da Casa de Artes, na Secção dos filmes
históricos PTO, na editora de Grjebin, "Alkonost", "Petrópolis", "Misl",
na redação das revistas "Casa das Artes", "O Ocidente Moderno", "O
contemporâneo russo". Durante estes anos escrevi relativamente pouco.
Entre as coisas mais importantes o romance"Nós, publicado em inglês em
1925, depois em tradução para outras línguas, este romance ainda não foi
publicado em russo.
Em 1925 traição à literatura: teatro, as peças
A Pulga e a Sociedade dos tocadores de carrilhão honorários.
A Pulga foi apresentada pela primeira vez no palco do Teatro
Acadêmico Artístico de Moscou em 2 de fevereiro de 1925, a Sociedade
dos tocadores de carrilhão honorários em novembro de 1925 no Grande
Teatro Mikhailovski em Leningrado. A nova peça — a tragédia
Átila foi concluída em 1928. Em Átila
cheguei aos versos. Impossível ir mais além, volto ao romance e contos.
Penso que se em 1917 não tivesse voltado da Inglaterra, se não tivesse
vivido todos estes anos junto com a Rússia não poderia mais escrever. Vi
muita coisa: em Peterburgo, em Moscou, na periferia em Tambov, nas
aldeias perto de Vólogda, Pskov, em vagões de carga.
Assim se fechou o círculo. Ainda não sei, não vejo quais serão doravante
as curvas de minha vida.
(1) N.T. A palavra "lanterna" na gíria significa "olho roxo"
(2) N.T. Em russo a letra "o" não acentuada é lida quase que como um "a"
em muitas regiões.
(3) N.T. Tarantás é uma espécie de carruagem coberta, com quatro rodas.
(4) N.T. Uma espécie de aquecedor de ambiente, constituído de um barril
metálico com uma chaminé, dentro do qual acendiam fogo.
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SOBRE A TRADUTORA
Clarice Lima Averina é paulista. Aprendeu russo em Moscou, onde
concluiu a Faculdade de História, da Universidade da Amizade dos
Povos. Nós é o quarto livro por ela traduzido do idioma russo.
Traduziu também Oriente e Ocidente, História do proletariado
brasileiro, de Boris Koval e Bíblia para crentes e
não-crentes de Emelian Iaroslavsky, estes dois últimos
publicados pela Alfa-Omega. |
Trabalhou como tradutora, durante 17 anos, na redação da América Latina
da Rádio Moscou Internacional. Durante o tempo em que viveu em Moscou (mais
de 20 anos) fez diversos trabalhos de tradução e versão, de contos,
filmes, e artigos sobre diferentes temas. No ano de 2000 foi nomeada,
pela Junta Comercial do Estado de São Paulo, tradutora pública e
intérprete comercial, tendo conseguido o quarto lugar no concurso da
JUCESP (os três primeiros colocados eram russos).
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QUARTA CAPA
Muito mais do que uma obra política, Nós insurge como um
corajoso ataque ao totalitarismo que com suas mãos de ferro viola os
direitos individuais, corrompe as relações humanas, usurpa a liberdade
do livre-pensar e agir, destrói a criatividade e violenta a arte em nome
de idéias equivocadas sobre um suposto bem comum.
É ainda um grito em defesa da liberdade do homem; um alerta, para um
perigo eminente: Cuidado! Querem fazer-nos acreditar na segurança da
não-liberdade.
Original, dono de aguçada percepção e imaginação, Zamiatin, numa narrativa
surrealista, permeada pela ironia — combinando realidade e irrealidade,
acontecimentos trágicos e risíveis, fazendo uso de uma linguagem contida,
propositalmente disciplinada; preocupado com a liberdade de escolha, com
o querer e o criar — profetiza a desumanização, os pensamentos e as
ações programadas, a banalização das necessidades do homem, a repressão
das emoções, o extermínio dos que estão em desacordo com a ordem imposta,
a produção de autômatos, as lavagens cerebrais, a destruição daqueles
que lutam para manter vivas imaginação e originalidade.
A história em Nós, fala das causas e de como se articula e acontece
uma revolução num tempo futuro, num espaço cercado por muros, onde os
membros da sociedade, constantemente vigiados pelos Guardiões, habitam
casas de paredes de vidro, não recebem nomes, mas números; são obrigados
a reverenciar ritualmente o Benfeitor e sua Máquina, têm pensamentos e
atitudes condicionados, executam trabalhos mecânicos, e suas vidas
particulares e sociais são programadas e controladas por um governo
autoritário, o Estado Unificado. O controle e as programações vão mesmo
até seus encontros íntimos transformados em impessoais, com horários e
locais estipulados, entre indivíduos (números) previamente registrados.
Temas, situações e conceitos encontrados em Nós
(escrito em 1920-21) — aqui, numa tradução precisa de Clarice Lima Averina,
a partir da primeira edição russa, de 1988 — inspiraram alguns
escritores como Aldoux Huxley em Admirável mundo novo (de 1932) e
George Orwell em 1984 (de 1949).
Nós é uma contribuição notável e pioneira de Zamiatin à discussão
da utopia, tema mais do que presente na literatura russa.
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ISBN 85-295—0044-X
Código de Barras: 9 788529 500447
Capa: Antônio do Amaral Rocha
Ilustração: Paul Klee, Italienische Stadt, 1928
212 pp. - R$ 46,00

PREFÁCIO DA EDIÇÃO RUSSA
Título original: MI, in Utopiia i Antiutopia XX Vieka Vietsher b 2217 Gadu
Ruskaia Litieraturnaia Utopiia Isdalistivo Progress Moskva — 1990
EVOLUÇÃO DA LITERATURA UTÓPICA RUSSA
Por Viatcheslav Chestakov
Tradução de Clarice Lima Averina
Na história da literatura, os romances e novelas utópicos sempre
desempenharam um grande papel, por serem uma das formas de
conscientização e avaliação da representação do futuro. Partindo, via de
regra, da crítica do presente, a utopia descrevia o desenvolvimento
ulterior da sociedade, seus possíveis caminhos, esboçava variantes do
futuro. Até hoje conserva-se esta função da literatura utópica, apesar
do rápido desenvolvimento da futurologia e popularidade da ficção
científica, que também procuram conhecer o futuro.
A literatura utópica mundial é muito ampla. No decurso de sua história
ela passou por períodos de ascensão e decadência, êxitos e fracassos. Às
vezes os autores de obras utópicas criavam obras claramente fracas no
sentido artístico e cognitivo. Mas, ao mesmo tempo, foram criadas
obras-primas, tais como
Utopia, de Tomas Morus ou Cidade do sol, de Campanella,
que até hoje são modelos do pensamento e criação utópicos.
Hoje é difícil imaginar um panorama geral da História sem as obras
utópicas. Como disse Oscar Wilde, não vale a pena olhar o mapa da terra
que não mostra a utopia, pois esse mapa ignora o país, que a humanidade
procura incansavelmente. O progresso é a realização de utopias.
O termo utopia teve origem no nome da fantástica ilha imaginária no
famoso livro de Tomas Morus. Este termo vem do grego "u" — "não" e "topos"
— "lugar". O significado literal do termo utopia é: lugar que não existe.
Existiram também outras versões deste conceito, em particular originária
do grego "eu" — "perfeito", "melhor" e "topos" — "lugar", isto é lugar
perfeito, país da perfeição. Ambas interpretações desta palavra estão
amplamente representadas na literatura utópica. Lembremos os nomes de
conhecidas obras utópicas, como Notícias de lugar nenhum de
William Morris, Erewhon (anagrama de nowhere) de Samuel Butler ou
Cidade do sol de Tommaso Campanella, ou ainda,
Admirável mundo novo de Aldous Huxley (este último título encerra,
é verdade, franca ironia) etc.
Na literatura contemporânea são utilizados também outros conceitos,
relacionados com o termo utopia e originários da raiz "topos". É — "distopia"
do grego "dis" — "ruim" e "topos" — "lugar", isto é, lugar ruim, algo
diametralmente oposto à utopia como mundo perfeito, melhor, empregado
para designar o gênero literário especial, a chamada utopia negativa,
também oposta à utopia tradicional, positiva.
Desse modo o termo utopia é agora complexo e de significado múltiplo.
Entretanto, apesar de toda a variedade de nuances de significado, a
função fundamental e tradicional desse termo é designar um país
imaginário com a finalidade de servir de exemplo de regime social.
No decurso da História a utopia, como uma das originais formas de
consciência social, teve características como interpretação do ideal
social, crítica social, exortação a fugir da realidade sombria, e também
tentativas de antecipar o futuro da humanidade. A utopia literária
entrelaça-se estreitamente com as lendas da "Idade de Ouro" das "ilhas
dos bem-aventurados", com diferentes concepções e ideais religiosos e
éticos. Na época do Renascimento a utopia adquiriu, preponderantemente,
a forma de descrição de Estados perfeitos ou cidades ideais, que
existiriam em algum lugar da terra, via de regra, em algum ponto
distante do globo terrestre, em ilhas inacessíveis, debaixo da terra ou
em montanhas. A partir do século XVII torna-se popular uma forma
especial de utopia literária: o chamado romance estatal, que contava
sobre viagens a países utópicos e continha, antes de mais nada, a
descrição de seus regimes estatais. Ao mesmo tempo difundiram-se
amplamente diferentes projetos e tratados utópicos.
Na História existiram os mais variados tipos de pensamento utópico, que
refletiam os interesses de diferentes classes e camadas sociais.
Existiram utopias escravistas (utopias de Platão e Xenofonte) utopias
feudais, por exemplo: A cidade de Deus, de Santo Agostinho e
Cristianópolis, de Andréas, numerosas utopias burguesas e pequeno—burguesas.
Muitas obras utópicas foram dedicadas não a regimes sociais em geral,
mas propunham a solução de determinados problemas sociais: tratados
sobre a "paz eterna" difundidos nos séculos XVI—XIX (Erasmo de Roterdam,
Saint—Pierre, Kant, Bentham); utopias pedagógicas, ético-morais e
estéticas (Jan Amos Komensky, Jean Jacques Rousseau, Lev Tolstoy,
Friedrich Schiller); utopias técnico-científicas (Francis Bacon) e
outros.
Entre utopias, diferentes por seu conteúdo social, destaca-se mais
claramente o socialismo utópico, que expressava os ideais das massas
trabalhadoras oprimidas, fundamentava as idéias da igualdade e justiça
social. Na literatura do socialismo utópico existiam, por sua vez,
diferentes orientações, que se distinguem umas das outras por seu
significado social e maturidade teórica dos ideais socialistas. O
socialismo utópico clássico do século XIX foi uma das fontes do marxismo.
Os clássicos do marxismo, assinalando a limitação histórica do
socialismo utópico, valorizaram altamente seu papel como prognóstico. "O
socialismo teórico alemão nunca esquecerá que se apóia nos ombros de
Saint-Simon, Fourier e Owen, três pensadores, que, apesar do caráter
utópico e fantástico de suas doutrinas, estão entre as maiores
inteligências de todos os tempos e que anteciparam genialmente inúmeras
verdades, cuja correção nós agora provamos cientificamente" (1).
Como forma de fantasia social, a utopia baseia-se, no fundamental, não
em métodos científicos e teóricos do conhecimento da realidade, mas na
imaginação. A isto está relacionada uma série de particularidades da
utopia, inclusive tais como afastamento intencional da realidade,
anseios de reconstruir a realidade segundo o princípio: "tudo deve ser
ao contrário", livre passagem do real ao ideal. Na utopia sempre está
presente a hiperbolização do princípio espiritual, nela destina-se um
lugar especial à ciência, à arte, educação, legislação e outros fatores
da cultura. Com o surgimento do comunismo científico, o significado
cognitivo e crítico da utopia positiva começa a cair gradualmente.
Adquire grande significado a função de crítica da sociedade, antes de
mais nada, burguesa, assumida pela chamada utopia negativa, novo tipo de
utopia literária, que se formou da segunda metade do século XIX. A
utopia negativa ou anti-utopia diferencia-se em muito da utopia clássica
positiva. As utopias clássicas tradicionais significavam uma idéia
figurada do futuro ideal e desejável. Na utopia satírica, utopia
negativa, romance-advertência descreve-se não o futuro ideal mas o
futuro indesejável. A imagem do futuro é parodiada, criticada. Isto não
significa, naturalmente, que com o surgimento das utopias negativas,
desaparece ou desvaloriza-se o próprio pensamento utópico, como supõe,
por exemplo, o historiador inglês Chad Walsh. Em seu livro Da utopia
ao pesadelo, ele escreve: "Uma porcentagem cada vez menor do mundo
imaginário é utopia, uma porcentagem cada vez maior dele são pesadelos.
A anti-utopia ou utopia no avesso foi, no século XIX, uma moldura
insignificante da produção utópica. Hoje ela é o tipo dominante, se já
não se tornou predominante estatisticamente". (2)
Na realidade, a utopia negativa não elimina o pensamento utópico, mas
apenas o transforma. Ela, na nossa opinião, herda da utopia clássica a
capacidade de prognóstico e crítica social. Naturalmente que a
anti-utopia é um fenômeno contraditório e heterogêneo, no qual se
encontram traços tanto conservadores como progressistas. Mas, nas
melhores obras desse tipo surgiram novas funções ideológicas e estéticas
— advertir sobre as conseqüências indesejáveis do desenvolvimento da
sociedade burguesa e seus institutos.
O surgimento das anti-utopias é um fenômeno pan-europeu. Ele é
observado, em essência, simultaneamente em quase todos os países da
Europa Ocidental, em particular na Inglaterra, Alemanha e França.
É digno de nota o fato de que a Inglaterra, pátria das utopias
positivas, é também pátria da utopias negativas, utopias-advertências.
Entre as primeiras anti-utopias estão
Raça futura, de Bulver Litton (1870); Erewhon, de S.
Butler (1872); Através do zodíaco de Persi Greg (1880); A
máquina pára, de E. M. Forster (1911) e outras.
Na Alemanha, entre as primeiras anti-utopias, destaca-se o romance de M.
Konrad, Na escuridão purpúrea (1895). Nele descreve-se a Europa
do século XXX. Konrad desenha um quadro sombrio do futuro. Guerras
intermináveis que dilaceram a Europa, no final leva à guerra mundial e
ao desaparecimento de toda a cultura européia.
Elementos da utopia negativa refletem—se na obra multilateral de Herbert
Wells — nos romances A guerra dos mundos e A guerra no ar. "Os romances
de ficção científica social de Wells" — escreveu em 1922 o escritor
russo Evgueny Zamiatin — "diferenciam-se das utopias assim como O + A
diferencia—se do —A; não são utopia, na maioria dos casos são panfletos
sociais, vestidos na forma artística de romance de ciência ficção". (3)
Motivos da anti-utopia são próprios também dos romances A ilha dos
pingüins, de Anatole France e O tacão de ferro, de Jack
London. O próprio desenvolvimento da literatura utópica, sua evolução
quanto ao gênero e conteúdo não podiam deixar de influir sobre a
interpretação semântica do termo utopia, tanto na teoria sociológica
como na própria prática literário-artística. Não é por acaso que hoje a
utopia não é apenas a representação ideal do futuro. É descrição do
futuro possível, tanto desejável como indesejável. Sendo que as utopias
literárias, diferentemente dos prognósticos sociais ou projetos
futurológicos, com freqüência são romances ou novelas de enredo
empolgante; são, via de regra, composições no gênero romance de
aventuras, viagens ou ficção científica.
A ficção científica é importante elemento da utopia. Os autores de
romances utópicos sempre usaram métodos de descrição fantástica. Mas, no
entanto, a utopia como gênero de arte tradicional é bastante definido,
diferencia-se da literatura fantástica ou ficção científica
contemporânea, que nem sempre se ocupa da construção de possível imagem
do futuro. A utopia diferencia-se também das lendas populares sobre "um
futuro melhor", porque ela, no final das contas, é gerada pela
consciência individual. Distingue—se a utopia também da sátira (apesar
de, com freqüência, incluir o elemento satírico) porque critica, via de
regra, não apenas um elemento concreto, mas o próprio princípio do
regime social. Finalmente ela se distingue também dos projetos
futurológicos, porque é uma obra de arte, que não leva a determinado
equivalente social e sempre encerra simpatias e antipatias, gostos e
ideais do autor.
Cada país deu e dá sua contribuição ao tesouro do pensamento utópico. O
catálogo mundial da literatura utópica no período do século XVI ao
século XIX tem cerca de mil títulos. Entretanto, também posteriormente,
a utopia não desaparece. Por exemplo, na Inglaterra, na primeira metade
do século XX, surgiram cerca de 300 obras de conteúdos utópicos, dezenas
de utopias foram criadas no início do século XX na Alemanha, nos EUA,
somente no período de 1887 a 1900 foram escritas mais de 50 utopias.
Na história da literatura russa existe também uma tradição bastante
sólida de criação de composições utópicas, ligada a nomes tais como
Sumarokov, Radishev, Odoevsky, Tchernichevsky, Dostoiévsky, Saltikov
Shedrin e outros.
A utopia literária russa perde em quantidade para a européia ocidental.
Na Europa o gênero da utopia é mais antigo e mais popular. A utopia
surge praticamente na aurora da literatura européia, pode-se dizer que
ela começou com Platão. Na Rússia a utopia surge no século XVIII — na
época da criação da literatura da idade moderna. Em compensação, a
partir desse período, ela se desenvolve ativamente, correspondendo às
necessidades do pensamento social russo. No entanto, a utopia russa é
menos conhecida do que a européia ocidental. Esta circunstância pode ser
explicada por duas causas. Em primeiro lugar a utopia russa nem sempre
se encontrava em uma obra independente, muitas vezes se dissolvia em
obras literárias de outros gêneros: romances sociais, contos fantásticos
(por exemplo, motivos utópicos na Viagem de Petersburgo a Moscou
de Radishev). Em segundo lugar, pesquisadores russos e estrangeiros não
deram atenção suficiente a este tema. Mais do que isto, alguns deles
acham que na Rússia a utopia como gênero de arte em desenvolvimento
conseqüente, ou não existiu, ou teve caráter de imitação e era
insignificante no sentido literário.
Hoje semelhante opinião é considerada arcaica e errônea. A atenção para
com a literatura utópica russa surgiu nos últimos anos. Há fundamentos
para afirmar que a literatura russa é mais rica em composições utópicas
do que se pensa. Sendo que estas composições são variadas tanto por seu
conteúdo social como por suas características de gênero. Aqui nós
encontramos tanto utopias no espírito do "romance estatal", popular no
século XVIII como utopias dezembrista, educativas, eslavófilas e obras
no espírito do socialismo utópico, e sátiras utópicas, que anteciparam o
gênero da "utopia negativa", que se tornou popular na segunda metade do
século XIX e início do século XX e outros tipos de literatura utópica.
As utopias socialistas surgiram na consciência popular ainda na antiga
Rússia. Elas tinham caráter de esperanças ou tradições, como por
exemplo, a lenda sobre Aventuras de Agapia no paraíso ou
Visita de Zocima aos rakhmanos. Entretanto as primeiras utopias
literárias, no sentido pleno da expressão, surgiram na Rússia no século
XVIII. Então surgiu também um grande interesse pelas utopias européias,
que eram traduzidas para o russo. Assim, na segunda metade do século,
foram publicadas duas edições da Utopia de Tomas Morus (é verdade
que a edição de 1789 foi queimada por ordem de Catarina II), traduções
de romances utópicos de L. Goldberg, D. Ramsay, F. Fenelon, B. Fontenele
e outros. Inicialmente as novelas e romances utópicos russos usavam
amplamente métodos e enredos literários das utopias européias.
Entretanto, imitadores na forma, eles sempre refletiram a vida social
russa, referindo-se a problemas da realidade russa.
A maioria das utopias européias tratava de viagens ou visita inesperada
a um país desconhecido, não assinalado nos mapas geográficos. Mikhail
Sherbatov assimila este enredo tradicional, por exemplo, ao descrever
sua "terra de Ofir" (Viagem à terra de Ofir). Porém, na
literatura russa, com maior freqüência, fala-se do futuro, que o herói
vê em sonhos. Claro que nem todos os sonhos podem ser considerados
utopia, mas só aqueles que permitiam ao escritor dar uma olhada no
futuro. Nisto se baseia o conto de Sumarokov "O sonho da sociedade
feliz", a notável descrição do sonho da novela de Radishev Viagem de
Peterburgo a Moscou, o
Sonho de Ulibichev, o quarto sonho de Vera Pávlovna do romance
Que fazer?, de Tchernichevsky, "O sonho do homem engraçado" de
Dostoiévsky e outros.
Por que justamente o sonho tornou-se o meio narrativo tradicional na
literatura utópica russa? Em certo grau, pelo visto isto se explica pela
censura da literatura russa. Pois as descrições utópicas do futuro
sempre foram uma forma perigosa de literatura, pois se referiam a muitos
problemas sociais agudos. A censura controlava rigorosamente e com
freqüência proibia muitas narrativas utópicas. Não foi por acaso, que
Catarina II ordenou queimar Utopia
de Tomas Morus! O sonho era outra coisa. Pois ele era uma forma
convencional e não-obrigatória de representação do futuro. O autor não
pode ser responsabilizado pelo que sonha. Existia também outra causa,
talvez mais significativa.
O escritor e pensador russo, talvez mais do que seu confrade europeu,
sentia a diferença entre o ideal e a realidade. Aquilo que o autor e
filósofo europeu achava possível já no processo de criação próxima (o
viajante que contava com detalhes concretos sobre uma sociedade que
existia na realidade) para o utopista russo parecia um grande sonho,
realizável apenas em um futuro muito distante.
Em 1858, Aleksandr Guertsen publicou em Londres duas obras Sobre
danos aos costumes na Rússia, de Sherbatov e Viagem de Peterbugo
a Moscou de Radishev. Não foi por acaso que ele publicou estas duas
obras, pois elas eram, em essência documentos do pensamento crítico e
radicalismo político. Entretanto em seu prefácio à edição, Guertsen
assinalou as diferenças substanciais na posição política de Sherbatov e
Radishev.
"O príncipe Sherbatov e Radishev" — escreveu ele — "representam
concepções extremas da Rússia dos tempos de Catarina. Tristes sentinelas
em duas portas diferentes, eles, como Jano, olham para lados opostos.
Sherbatov, dando as costas para a corte dissoluta de seu tempo, olha
para a porta em que entrou Pedro I e atrás dela vê a Rússia moscovita
cerimoniosa e arrogante, e o velho descontente acha que o modo de vida
entediante e semi-selvagem de nossos ancestrais é um ideal perdido."
É totalmente diferente a posição de Radishev, para o qual o ideal é o
futuro e não o passado. Radishev olha para frente, sente a influência
dos últimos anos do século XVIII. Nunca o peito humano esteve tão pleno
de esperanças do que na grande primavera dos anos noventa... Radishev
está muito mais próximo de nós do que Sherbatov; é claro que seus ideais
estavam tão alto no céu como os ideais de Sherbatov estavam
profundamente no túmulo; mas eles eram nossos sonhos, sonhos dos
dezembristas. Esta ligação "interna" refletiu-se, além de outras coisas,
no fato de que os dezembristas, como Radishev, trataram da utopia
literária como arte que permite unir a crítica social do presente com
uma olhada para o futuro.
Entre as utopias dezembristas estão, antes de mais nada, a novela
Sonho de Aleksandr Ulibichev, que aderiu aos dezembristas, e as
Cartas européias, de Vilguelm Kiukhelbeker. As últimas foram
escritas em nome de um americano, viajando pela Europa no século XXVI, e
tecendo considerações sobre o passado e presente dos países europeus.
Ele comunica que a Europa naquele tempo "envelheceu", países tais como a
Itália e Espanha entraram em decadência, Paris e Londres desapareceram
da face da terra. "A providência tirou-lhes a luz, mas somente para
ordenar ao sol da verdade brilhar melhor sobre a Ásia, sobre a África,
sobre a sucessora natural da Europa — a América".
Como assinalou Iury Tinianov, que pesquisou a obra de Kiukhelbeker, não
foi por acaso que ele recorreu à América, isto representava a idéia do
futuro da Rússia. Kiukhelbeker, futuro dezembrista, tinha desenvolvido o
sentido do grande futuro histórico que sua pátria tinha pela frente e a
fé firme no "aperfeiçoamento do ser humano". Sua "América" é a futura
Rússia do dezembrista; ele relaciona com ela a juventude e significado
de seu país, em comparação com o qual a Europa envelheceu.
Na segunda metade do século XIX surge na literatura russa uma série de
obras, notáveis por seu conteúdo sócio-filosófico e nível estético, que
tinham motivos utópicos e realizavam os princípios artísticos da utopia.
E aqui se deve citar em primeiro lugar obras de Dostoiévsky. A idéia da
"Idade de Ouro" da humanidade sempre emocionou o escritor. Dostoiévisky
torturava-se com a questão: será possível ao homem voltar-se para a vida
natural e beleza idílica, que está relacionada com a imagem da "Idade de
ouro", ou a catástrofe o espera — se não o extermínio físico direto,
pelo menos a queda de todos os valores morais e culturais. A idéia da
"Idade de Ouro" soa já nos devaneios de Raskolnikov no romance Crime
e castigo e no conto "O sonho do homem engraçado".
• • •
É digna de nota, por exemplo, a novela do jornalista peterburguense
Nicolai Fiodorov, Noite de 2217.
Assinalamos que muitos momentos da utopia negativa de Fiodorov podem ser
explicados pela influência da utopia de Bellani, Olhando para trás.
Não é por acaso que tanto nele, quanto em Belanni figura o Exército do
Trabalho. O trabalho sem alegria reduz-se a operações mecânicas, sem
conteúdo. A população é dividida em centenas e milhares, sendo que cada
deve portar seu número de trabalho.
Não apenas a vida particular, mas também, a social é subordinada a
padronização. Até mesmo as relações humanas íntimas, como o amor, são
subordinadas a um único objetivo — reprodução de uma prole saudável e
perfeita. A família não existe, ela desapareceu há muito tempo como
resquício romântico e ridículo.
A novela de Fiodorov é típica do gênero da anti-utopia. Seu conteúdo
mesmo em detalhes lembra algumas utopias negativas posteriores.
A utopia de Fiodorov é dirigida contra as idéias de ultra-esquerda em
relação ao futuro. São, em essência as idéias que habitualmente
associamos com o "comunismo de quartel".
Fiodorov contrapõe à negação do indivíduo, à idéia de socialização
absoluta (que subordina até mesmo as esferas mais recônditas do ser) o
ideal da "vida normal", da família, dos sentimentos humanos naturais.
Temas, relacionados com a utopia, aparecem com freqüência cada vez maior
na obra de conhecidos escritores russos.
Valeri Brussov escreve algumas obras utópicas. Entre elas A terra,
A República do Cruzeiro do Sul, As sete tentações terrenas. Aqui o
leitor encontra descrições impressionantes do progresso
técnico-científico: edifícios altos, carros e dirigíveis elétricos e até
mesmo iluminação radioativa.
Deve-se assinalar que na obra de Brussov predomina a utopia negativa. No
espírito da anti-utopia Brussov descreve o futuro em sua novela
A República do Cruzeiro do Sul.
A polarização, característica da vida social e política da Rússia do
inicio do século contribuiu também para a polarização no campo da utopia
literária e como resultado demarcaram, com bastante precisão, as linhas
divisórias entre as utopias democráticas e conservadoras.
Um exemplo típico da última foi a novela utópica de Serguei Chaparov
Dentro de meio século (1902). Em sua descrição, a Rússia permanece
um império, é governada por um tsar, senado e Conselho de Estado. O
poder local concentra-se nas mãos da nobreza e do clero.
Outro pólo da literatura utópica daquela época é representado pela
utopia socialista de Alexander Bogdanov. Ele escreveu dois romances
utópicos A estrela vermelha (1908) e sua continuação,
O engenheiro menni (1911).
No romance A estrela vermelha Bogdanov descreveu a sociedade do
futuro, baseada nos princípios comunistas, que o protagonista,
revolucionário profissional, encontra em Marte.
O romance A estrela vermelha tinha a finalidade de fazer
propaganda e popularizar os ideais comunistas. Não foi por acaso que seu
leitor atento foi Lênin, que, apesar de ter uma atitude negativa em
relação as obras filosóficas de Bogdanov, revelou grande interesse por
sua utopia A estrela Vermelha.
O desenvolvimento da utopia literária na Rússia não foi apenas um fato
da história. A Revolução de Outubro aproximou as fronteiras da fantasia
e da realidade.
A construção da sociedade socialista, e, às vezes, a crença ingênua na
possibilidade de intervenção dirigida na marcha objetiva da história
deram forte impulso para o desenvolvimento da literatura utópica e de
ficção científica. A partir dos anos 20 a utopia tem amplo
desenvolvimento.
A utopia soviética assimilou as tradições da literatura utópica russa,
que se delinearam já no final do século XIX, início do século XX, por um
lado a tendência para a utopia socialista, própria da literatura russa,
e por outro — a anti-utopia.
E. Zamiatin indicou esta circunstância no livro Herbert Wells (1922)
onde apresenta uma resenha da literatura utópica, não apenas ocidental,
mas também russa.
A vida petrificada da Rússia antes da Revolução quase não apresenta, e
não poderia apresentar exemplos de literatura social e de ficção
científica.
Praticamente os únicos representantes deste gênero, em passado recente
de nossa literatura, foi o conto "Sol líquido" de Kuprin, o romance de
Bogdanov A estrela vermelha que tem um significado mais
propagandístico do que artístico e se voltarmos mais, temos Sen Kovsky e
Barão Brambeus. A Rússia pós-revolucionária, que se tornou o mais
fantástico de todos os países da Europa contemporânea, reflete, sem
dúvida nenhuma, este período da história da literatura de ficção
científica.
Deram início a isto os romances de Alexcei Tolstoi Aelita
e Hiperboboloide do engenheiro Garin, o romance Nós, os
romances de Iliá Erenburgo Julio Jurenito e Trust D. E.
(4)
Em muitos romances utópicos e de ficção sócio-científica dos anos 20:
O país de Gonguri de V. Itinm, O mundo futuro, de I. Okunev,
A luta do éter, de A. Beliaev, Dentro de mil anos, de V.
Nikolsky, A terra dos felizes, de Y. Larri e outros existem
tentativas de descrever o porvir como futura vitória da sociedade
comunista em todo o mundo. Entretanto a imagem social do futuro neles,
via de regra, resumiu-se a prognósticos técnico-científicos, a previsões
futurológicas.
Depois da grande ascensão e desenvolvimento da literatura utópica nos
anos 20, ocorreu uma brusca queda e a partir dos anos 30 as utopias
raramente surgem nas livrarias. O desenvolvimento da ficção científica
contribuiu em muito para o renascimento deste gênero.
Existem muitos pontos de vista diferentes sobre o grau de correlação das
obras de ficção científica e utopias.Uns literatos consideram que a
ficção científica moderna, em suas pesquisas, está organicamente ligada
ao romance utópico.Outros consideram que a ficção cientifica não passa
de uma forma contemporânea do romance utópico. Existem realmente
fundamentos para tal conclusão. Muitas obras de escritores de ficção
científica, em particular dedicadas ao problema do futuro, ou são, em
essência, romances utópicos ou desempenham a função de romances utópicos.
Assim são os romances dos escritores soviéticos A nebulosa de
Andrômeda e A hora do touro de Efremov ou O retorno (Meio-dia.
Século XXII) dos irmãos Strugatsky. Ao mesmo tempo muitos escritores
são fiéis ao gênero utópico tradicional. O tema utópico é característico
da obra de Vladimir Nabokov (romances Ada
e Convite para a execução).
Na segunda metade dos anos 80 surgem quase que simultaneamente duas
anti-utopias, que refletem sintomaticamente a época.
É a pequena novela da Alexander Kabakov, Não retornado
e o romance de Vladimir Voinovitch Moscou 2042.
Ambos os autores descrevem o futuro como pesadelo e catástrofe total. Ao
mesmo tempo estas anti-utopias diferem radicalmente uma da outra tanto
pelo estilo, como pelo meios artísticos. A utopia de Kabakov é um
pesadelo sombrio, que impressiona por ser realmente comparável com a
atualidade.
Ao contrário, a utopia de Voinovitch é uma fantasia irrefreável e alegre
do futuro com diferentes nuances de sátira. Até os defeitos destas obras
são diferentes: se a novela de Kabakov parece um fragmento de algo
grande, o romance de Voihovitch, ao contrário, é um tanto esticado.
Ambas estas anti-utopias, entretanto, advertem-nos sobre a possibilidade
de chegada de um futuro indesejável.
Tudo isto demonstra que a tradição multisecular do romance utópico russo
não desaparece sem deixar vestígios, que ela continua até agora a
alimentar a literatura contemporânea.
(1) K. Marx, F. Engels, Obras, tomo 18, p. 498—499.
(2) Ch. Walsh. From Utopia to Nigthmare, London, 1962, p. 14
(3) E. Zamiatin. Herbert Wells, Petrograd, 1922, p. 43
(4) Zamiatin Evgueny "Herbert Wells" Petrogrado, 1922,
p.146.
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EVGUENY
ZAMIATIN

EDIÇÕES BRASILEIRAS DE NÓS
O editor Gumercindo Rocha Dória, através da
Edições GRD, foi o introdutor de Zamiatin no Brasil, ainda na década de
60.

A muralha verde, traduzido do francês, Nous Autres, (Gallimard),
Edições GRD, 1962.
NOTA INTRODUTÓRIA
Por José Sans
Quando li este romance, na edição francesa também de 1920 (Nous
Autres, Gallimard), o fiz levedo pela curiosidade que me despertou
uma referência de Victor Serge em Destin d'une Révolution — URSS
1917-1937:
"Em 1929, dois grandes escritores da nova geração foram, subitamente,
denunciados por todos os jornais cumprindo uma ordem do Comitê Central
como inimigos públicos. Um, por ter escrito uma novela de um realismo
qualificado de pessimista e contra-revolucionário sobre a vida na
província (Pilniak — Bois desdeslles); o outro, por ter publicado
em tradução, no estrangeiro, uma obra condenado pelo censura porque era
uma forte sátira ao estatismo burocrático (Zamiatin — Nous autres).
Pilniak fêz todas as concessões exigidas e chegou mesmo a refazer seu
livro para dar—lhe um carácter otimista. Zamiatin, mais firme, teve que
se expatriar".
Nenhuma indicação, portanto, de se tratar de uma obra de antecipação, ou
ficção científica, se quiseram (1). Interessava-me saber o que um
escritor para mim inteiramente desconhecido que vivera aquele momento
histórico, pensava do processo de esmagamento da chamada "Grande
Revolução".
Logo de início, o romance não deixa dúvidas sobre o gênero e, mais
ainda, sobre a alta qualidade literária do autor. À sátira aparece
secundária, envolta em sombrio, desespero, mas penetrante e feroz.
Talvez por isso os críticos que tanto exaltam a obra medíocre e
monotonamente político-didática dos Belaiev, Nemzov, Kazantvez, Evremov,
todos enquadrados numa "literatura de uniforme" (Max Eastman), não se
interessem na divulgação de um romance que é uma séria advertência aos
que sonham com regimes ideais, sem ver o que se esconde por trás de
promessas.
O fato de Nous autres (A muralha verde, nesta tradução
brasileira) ter sido escrito em 1920, confere-lhe uma dimensão
inesperada, não só na literatura de antecipação, mas na literatura em
geral, elevando-o à categoria de profecia.
Se escrito entre 1927 e 1929, como seria de supor, pela referência de
Victor Serge, um crítico poderia ver nele uma "sátira" construída a
partir de elementos dados, extraídos de acontecimentos que já se
delineavam claramente.
Efetivamente, como todos sabem, menos os politicamente cegos e surdos,
1927 marcou o início de controle total do mecanismo estatal pela "gang"
stalinista, com a liquidação das oposições de esquerda e direita. Era o
Termidor soviético, o mais sangrento "sabat" de história.
O clamor vindo do campo, a miséria, a fome, a brutal supressão das
liberdades e o encarceramento e liquidação dos "recalcitrantes",
demonstravam claramente o plano inclinado por onde deslizava, cada vez
mais veloz, a "Grande Revolução" e eram elementos concretos para a
composição de um painel sobre o futuro, não tão longínquo, que iria
transformar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas num Estado
Policial peno do qual o Estado Cínico do Benfeitor, descrito por
Zamiatin, chega a sei quase aceitável...
Já se anunciava, em 1929, a guerra contra os camponeses que sonegavam o
trigo, resistindo à coletiviza çõo de cima para baixo. E Zamiatin relata
o acontecimento (em 1920!) assim:
"...falo da grande Guerra dos Duzentos Anos, da guerra entre a cidade e
o campo. Os camponeses selvagens, sem dúvida por preconceito religioso,
tinham muito apego a seu " pão".
E numa nota ao pé da página acrescenta, irônicamente, referindo-se a"
pão":
"Esta palavra é conservada em nossa língua como metáfora poética: a
fórmula química desse composto nos é desconhecida".
E espantoso porque a grande fome do princípio dos anos 20 poderia ser,
perfeitamente, como foi, aliás, considerada um fenômeno passageiro,
decorrente da desorganização da agricultura pela guerra e das sucessivas
tentativas e invasão levadas a cabo pelos" imperialistas". A publicação
de Nous autres em 1924, por exemplo, talvez fizesse rir os
leitores pois havia uma aparente recuperação do campo. Mas Zamiatin viu
mais longe.
Em 1920 viu, claramente, aonde levaria a nova forma de governo. Viu o
massacre dos camponeses, que chegaria ao auge em 1934, mas que em 1929
apenas se esboçava.
E fala-nos, também, de uma Muralha que separa o Estado Único das regiões
selvagens do Ocidente e de uma nave espacial, à "Integral", a primeira a
levar, mesmo à fôrça, se necessário, aos outros planetas, a "felicidade"
instituída pelo Benfeitor no Estado Único.
Algum profeta bíblico pronunciou-se mais claramente?
Numa sociedade dividida em classes, castas ou qualquer outra forma de
domínio de uma maioria por uma minoria ou vice-versa, o amor não é
permitido porque de significa revolta, liberdade, e o imenso edifício da
coerção só pode viver sufocando na casca toda veleidade de revolta.
O amor é uma força "que só pode ser destruída esterilizando todas os
mulheres e castrando todos os homens mas, nesse caso, os Senhores não
teriam mais escravos nem exércitos" (Ado Kyrou). A solução é, portanto,
que homens e mulheres se unam, mas para dar súditos leais, como bons
reprodutores a serviço da imensa granja em que se transformou cada
Estado moderno.
Este é, efetivamente, o tema básico do livro de Zamiatin, que ultrapassa
o limite da "sátira", com que o rotulou Victor Serge. A história de uma
mulher que lutou desesperadamente pela liberdade, pelo direito de amar e
que foi sacrificada ao deus-Estado pela covardia de um homem.
É um livro trágico, fascinante, terrível.
(1) Poderíamos indagar, com Jacques Sternberg, o porquê da adoção dessa
terminologia, que, diz ele, já é bárbara em inglês e praticamente
intraduzível, soando como um acorde colocado, ao mesmo tempo preciso
demais e tão pouco eloqüente (V. Une Sucursalee du Fontastique nomée
Science Fiction, Le Terrain Vague, 1958, livro magnífico e que
deverá ser lançado por CRI) no próximo ano). Alguns utilisam o termo "antecipação".
Fausto Cunha, o celebrado autor de As Noites Marcianas, aventou a
idéia de ser utilizada a expressão "neo gótica'. Surgiu uma coleção em
São Paulo que traz o nome de "ciencificçâo". Os argentinos, na sua
célebre coleção Minotauro, utilizam "ciencia-ficción". Os italianos
dizem "fantascienza". Queiramos ou não, a expressão consagrada é "ficção
científica". Ela já tem livre trânsito. Aceitêmo-la, pois.
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ORELHA
A muralha verde, de E. Zamiatin
Eis, nas palavras finais da introdução de A muralha verde, assinada por
José Sanz, o significado da presente obra de Zamiatin: "a história de
uma mulher que lutou desesperadamente pela liberdade, pelo direito de
amar e que foi sacrificada ao deus-Estado pela covardia de um homem".
E conclui José Sanz: "É um livro trágico, fascinante, terrível".
E. Zamiatin (Evgenj Ivanovitch Zamiatin), nasceu no ano de 1884, na
Rússia, e morreu em Paris, no ano de 1939. Autor de vário, livros, entre
os quais Hístórias de Distrito (1911) A muralha verde (escrito em 1920)
e publicado. na Inglaterra, sob o título de We, e na França, em
1929, sob o de Nous autres.
A muralha verde teve a sua epopéia: escrito, o original não foi aceito
pelos censores do Estado. que o consideraram desrespeitoso, pois os
principais personagens do livro, o ambiente, as circunstâncias, as
críticas, tudo o que estava nas páginas de Zamiatin como que retratavam
uma realidade por demais contundente. Na mesma época, Pilniak, que já
teve livro traduzido no Brasil, também foi chamado a "rever" uma de suas
obras, por demais "burguesa". Curvou-se Pilniak, abdicando de sua
honorabilidade, de criador. Reviu o livro e adaptou-o às exigências
policiais da ditadura. Zamiatin agiu de modo diferente: empacotou os
seus originais e remeteu-o para além das fronteiras russas. Foi
perseguido, cerceado na sua profissão de engenheiro. Doente, conseguiu
autorização para sair da Rússia, terminando os seus dias em Paris, onde
lançou, pela Gallimard, o seu livro, que agora é publicado ao Brasil.
Ficção cientifica, A muralha verde? Alguns componentes do gênero ai
estão: a) uma nave interplanetária, a "Integral", que se destina a levar,
b) aos mais distantes planetas, c) a "felicidade", d) que é imposta à
fôrça no Estado Único, e) halo Benfeitor. Por fim, f) o Homem, na sua
luta permanente, pela liberdade.
Que decida o leitor. Um gênero literário se impõe pela qualidade da obra
e não pelo rótulo, não esquecendo, portanto, o que diz Fausto Cunha: "O
que me parece, em linhas gerais, é que a distância entre a boa
literatura de ficção cientifica e a boa literatura de ficção está se
reduzindo cada vez mais ao do gênero: a ficção. paulatinamente se
transforma em metaficção e vice-versa".
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Nós, traduzido do inglês
We, por Lia Alverga Wyler, Editora Anima, 1983.
INTRODUÇÃO
por Mirra Ginsburg
Nós desempenhou um papel decisivo na vida de Eugene Zamiatin. Uma
síntese de sua filosofia, o romance prefigurava com surpreendente
exatidão não só o futuro do autor como o de seu país. A profissão de fé
de Zamiatin encontra-se claramente expressa nas palavras da heroína de
Nós: "Não existe uma revolução final. As revoluções são infinitas" e
"Não quero que ninguém queira por mim — Quero querer por mim mesma."
Esses dois princípios — a mutação constante e a liberdade individual de
escolher, querer e criar segundo suas necessidades e vontade — dominaram
sua vida e sua obra. "Derrubaremos todas as paredes para deixar a aragem
renovadora soprar livremente de um extremo a outro da Terra", diz sua
heroína. Não admira que fosse odiado e perseguido por aqueles que
exigiam uniformidade e obediência irrestrita a uma vontade exterior — a
do Estado, do Benfeitor. do Partido.
Um escritor vigoroso e original, inteiramente moderno. sua obra tem
raízes profundas na tradição literária russa. É um descendente direto de
Gogol e Dostoyevsky, os escritores preferidos de sua infancia. Encontra-se
também bem próximo de Leskiv. Chekhov. Shchedrin e dos seus
contemporâneos Alexey Remizov e Andrey Belv. A exemplo de Gogol e
Dostoyevsky, preocupa-se intensamente com problemas morais centrais: e,
como todos eles, é um grande mestre da sátira, do estilo e do grotesco.
Zamiatin nasceu em 1884 em Lebedyan, uma das aldeias mais coloridas no
coração das terras férteis russas, a umas duzentas milhas a sudeste de
Moscou — uma região de campos produtivos, de velhas igrejas e conventos,
feiras, ciganos e trapaceiros, monges e taberneiros, mulheres belas e
rosadas e mercadores que ganhavam e perdiam milhões da noite para o dia.
Era também uma região que conservava um linguajar folclórico, rico e
expressivo, que Zamiatin absorveu e mais tarde empregou obtendo
magníficos efeitos em muitas de suas estórias, peças e novelas.
Seu pai, um padre ortodoxo, ensinava religião na escola local. A mãe era
uma pianista talentosa.
Engenheiro naval de formação, Zamiatin cedo voltou-se para a literatura.
Em 1913 publicou Um Conto Provinciano e em 1914 No Fim do
Mundo, satirizando a vida militar numa remota guarnição de fronteira.
O periódico em que este último conto apareceu foi confiscado pelas
autoridades tzaristas e tanto o editor quanto o autor foram julgados por
"caluniar a oficialidade russa". O processo foi arquivado, mas isto foi
apenas um dos muitos atritos com a autoridade constituída. que marcaram
sua vida inteira.
Ainda estudante no Instituto Politécnico de São Petersburgo.No inicio do
século, Zamiatin ingressou na facção bolchevista do Partido Social
Democrático. Preso durante a revolução de 1905, passou alguns meses na
solitária e, ao ser libertado, foi exilado de São Petersburgo. Após uma
breve estada em Lebedyan, voltou à capital, onde viveu "ilegalmente" (e
continuou seus estudos) até 1911, quando a polícia finalmente o
encontrou e tornou a ser exilado. Foi durante este exílio. que escreveu
Um Conto Provinciano. Anistiado em 1913 recebeu permissão para voltar a
São Petersburgo.
Ao graduar-se no Instituto Politécnico foi convidado a integrar o corpo
docente. Por alguns anos o ensino e a engenharia suplantaram a
literatura. Durante a Primeira Guerra Mundial, Zamiatin foi enviado à
Inglaterra para desenhar e supervisionar a construção dos primeiros
quebra-gelos russos. Quando a Revolução eclodiu, em 1917, não conseguiu
suportar a idéia de permanecer afastado da Rússia e apressou-se em
voltar, trazendo na bagagem dois contos que satirizavam a vida inglesa,
Os Ilhéus e O Pescador de Homens.
Na Rússia, Zamiatin (então um ex-bolchevista) lançou-se com tremenda
energia ao grande desenvolvimento cultural e artístico que se seguiu A
revolução. Foi um período de fantásticas contradições. A Rússia
encontrava-se em ruínas após anos de guerra, revolução e continuadas
lutas civis. A vida econômica do país beirava o colapso. Os transportes,
as comunicações, o abastecimento, o contato entre cidades e vilas
estavam em completa desorganização? Entretanto, em meio à fome e ao frio,
um punhado de espíritos dedicados propunha-se não só a salvar a cultura
do país mas a oferecer As massas, até então desprivilegiadas, a herança
cultural do mundo inteiro.
Naqueles dias sombrios, principalmente por iniciativas de Gorky, o
verdadeiro santo patrono da literatura russa, formaram-se diversas
organizações, tanto para manter fisicamente vivos os escritores,
acadêmicos e artistas como para permitir que dessem continuidade ao seu
trabalho. Em 1920, em Petersburgo, surgiram: a Casa das Artes, onde os
escritores eram alojados em cada quarto e cubículo disponível, sem
calefação, do antigo palácio do grande mercador Yeliseyev; a Casa dos
Cientistas; e uma quantidade de editoras e jornais literários (Zamiatin
trabalhou na editoria de diversos deles). Organizaram-se estúdios, onde
jovens literatos aprendiam os elementos de sua profissão com escritores,
poetas e tradutores como Zamiatin, Gumilyov, Lozinsky, Chukovsky e
outros. Professores e alunos muitas vezes tinham de atravessar a cidade
a pé e sentar em salas sem calefação, vestindo velhos casacos, suéteres
e abafadores, gelados e famintos mas totalmente absorvidos pelas
brilhantes discussões literárias.
Uma variedade de escolas e movimentos proliferava em todas as áreas
artísticas, algumas retomando o vigor dos anos anteriores à guerra,
outras, inteiramente novas. Disputas infindáveis grassavam entre
simbolistas, futuristas, construtivistas, formalistas, acmeístas,
imaginistas, neo-realistas e, naturalmente, o grupo. cada vez mais
poderoso e vociferente dos escritores e críticos proletários que
encaravam a literatura como um simples instrumento da revolução e da
mudança social. Zamiatin tomou-se o líder e o professor da Irmandade
Serapion, um grupo que incluía alguns dos jovens escritores mais
promissores e originais da época — Mikhail Zoshchenko, Vsevolod, Ivanov,
Valentin Katayev, Veniamin Kaverin, Konstantin Eedin, Lev Lunts, Nicoiay
Tikhonov, Victor ShIdovsky e outros. Diferindo em temperamento, método e
esfera de ação, uniam-se pela insistência na liberdade de criação, no
direito do artista de perseguir uma visão individual, na variedade, nas
experiências com a forma, e na importância do trabalho criador.
Lev Lunts, um dos membros mais brilhantes do grupo, redigiu um manifesto
no qual proclamava a completa autonomia da arte. "As quimeras literárias",
escrevia ele, "são uma forma especial de realidade". Ele rejeitava os
direitistas e esquerdistas que gritavam: "Se você não está conosco, está
contra nós". "Com quem estamos nós, a Irmandade Serapion?" perguntava. "Estamos
como eremita Serapion. Rejeitamos o utilitarismo. Não escrevemos para
fazer propaganda. A arte é tão real quanto a própria vida e, como a vida,
não possui um objetivo ou uma significação, existe simplesmente porque
tem de existir... A única exigência É que a voz do escritor nunca seja
insincera".
Os Serapions apoiavam a idéia de Zamiatin de que "a verdadeira
literatura só pode existir onde é criada, não por oficiais laboriosos e
dignos de confiança, mas por loucos, ermitãos, heréticos, sonhadores,
rebeldes e céticos" — uma profissão de fé que tornou pública em 1921, no
ensaio Tenho medo
(1). E a necessidade de heresia, o direito de dizer ao dogma oficial, a
crença de que os erros sao mais úteis do que a verdade, de que as
verdades são idéias "já atingidas pela arteriosclerose" são temas
repetidamente expressos nas obras de Zamiatin. Em Amanhã ele escrevia:
Aquele que encontrou hoje o seu ideal é como a mulher de Lot, já
transformado em estátua de sal. O mundo só se mantém vivo graças aos
heréticos: o herético Cristo, o herético Copérnico, o herético Tolstoy.
O nosso símbolo de fé é a heresia... Convocamos a "intelligentsia" russa
à defesa do homem, e dos valores humanos. Apelamos. não àqueles que
rejeitam o hoje em nome de uma volta ao passado. não àqueles que estão
irremediavelmente ensurdecidos pelo hoje; apelamos para aqueles que véem
o amanhã distante — e julgam o hoje em nome do amanhã, em nome do homem.
Em 1921, num ensaio intitulado Paraíso, Zamiatin mais uma vez
criticava, mordaz, os guardiões da unanimidade, os que exigiam a
conformidade total:
Muito tem sido dito por muitos sobre a imperfeição do universo... e
sua surpreendente falta de monismo: água e fogo, montanhas e abismos,
santos e pecadores. Que absoluta simplicidade, que felicidade
desanuviada de qualquer pensamento, haveria se (Deus) tivesse desde o
princípio criado uma única água ardente, se desde o princípio tivesse
poupado ao homem o estado de liberdade selvagem. — Vivemos sem dúvida
numa era cósmica uma era de criação de um novo céu e de uma nova rena. E
naturalmente não repetiremos (Seu) erro. Não haverá polifonia ou
dissonância. Apenas uma majestosa, monumental e abrangente unanimidade.
Em A Nova Prosa Russa (1923):
A própria vida hoje perdeu a sua realidade de plano: já não se
profeta ao longo de antigos pontos fixos, mas ao longo das coordenadas
de Einstein, da Revolução. Nessa nova projeção, as formas e objetos
mais conhecidos tornam-se deslocados, fantásticos, familiares-estranhos.
Por isso é tão lógico que a literatura de hoje sinta-se atraída pela
trama fantástica, ou por um amálgama de realidade e fantasia.
E no seu ensaio: Literatura, Revolução. Entropia e Outros Temas,
ele expande uma das idéias centrais de Nós:
A revolução está em toda parte, em tudo. E infinita. Não existe
revolução final, nem número final. A revolução social é uma de um número
infinito de números. A lei da revolução não é uma lei social, mas algo
incomensuravelmente maior. É uma lei cósmica, universal — como as leis
da conservação da energia e de dissipação da energia (entropia)... Ainda
no mesmo ensaio:
A literatura nociva é mais útil do que a literatura útil, porque é
antientrópica, é um meio de combater a calcificação... É utópica,
absurda... Torna-se verdadeira 150 anos depois.
E uma das suas afirmações mais significativas:
Hoje na literatura precisamos de vastos horizontes filosóficos...
Precisamos do mais final, mais temível, mais audacioso "Porque? e "E a
seguir?"
Em 1926, em A meta, Zamiatin desfechou um ataque frontal contra
os críticos comunistas que exigiam do escritor uma subserviência total
às exigências do partido:
A Revolução não precisa de cães que "se sentam 'a espera de um
petisco ou porque temam o açoite. Nem precisa de treinadores para esses
cães. Precisa de escritores sem medo... Precisa de escritores em quem a
Revolução desperte um eco verdadeiramente orgânico. E não importa que
esse eco seja individual... se um escritor desconhece um determinado
parágrafo adotado numa determinada conferência. O que importa é que o
seu trabalho seja sincero, que impulsione o leitor para diante... que
perturbe o leitor ao invés de tranqüilizar e embalar sua mente, mas em
que direção? E em que medida? Quanto mais longe melhor. A redução de
preços, melhoramentos sanitários nas cidades... tudo isso é muito bom...
posso imaginar um excelente artigo de jornal sobre tais tópicos (um
artigo que será esquecido no dia seguinte). Mas acho difícil imaginar
uma obra de Lev Tolstoy ou de Romain Rolland baseada na melhoria das
condições de saneamento.
Inevitavelmente, Zamiatin tomou-se uma das primeiras vítimas dos
guardiões da "unanimidade" e da literatura 'higiênica". Foi atacado por
estar em "desacordo com a revolução", por "aviltar e caluniar" os
princípios e "realizações" revolucionários, por ser "um observador frio
e hostil" e um "emigrado
interno", que fazia o jogo dos inimigos do regime soviético. (Seria
desnecessário mencionar aqui a longa lista de artistas independentes até
Pasternak, Sinyavsky,Daniel.e Solzhenitsyh, que sofreram igual destino
durante os anos de ditadura.
Durante os primeiros dez anos após a revolução, ainda foi possível
publicar as obras de Zamiatin, apesar do coro constante de insultos a
ele dirigidos pelos guardiões da ortodoxia. Essas obras, naturalmente,
nunca apareceram nas revistas oficialmente patrocinadas e subsidiadas.
Eram, em geral, publicadas quer por periódicos de vida efêmera ou em
antologias preparadas por grupos de escritores, quer por periódicos e
editoras privadas cuja existência ainda era tolerada naqueles primeiros
tempos.
Com grande coragem e integridade, Zamiatin continuava a escrever como
via e sentia — ensaios, peças, ficção — embora a mão insensível da
ditadura se tomasse cada vez mais pesada. Uma passagem do ensaio
Sobre o Futuro do Teatro, escrito bem mais tarde e publicado em
francês em 1932, expõe de maneira clara uma importante faceta do seu
caráter. "A peça mais séria", dizia ele, "é a peça na qual o destino
traz no bolso um horário, preparado e carimbado há muito tempo marcando
o dia e a hora do fim trágico de cada um de nós". Sem dúvida, ele sabia
o que o futuro lhe reservava, mas continuou fazendo o que julgava melhor.
O alcance e a qualidade de sua obra, nas circunstâncias, é surpreendente.
Zamiatin não foi apenas um consumado satirista e estilista, mas um
mestre de muitos temas e muitos estilos. Algumas das estórias (2) são
maravilhosas evocações da Rússia quase mitológica de sua infância.
Outras parecem baladas — a paisagem é árida, as pessoas e os
acontecimentos são trágicos ou cômicos numa escala grandiosa. Outras
ainda, retratam o presente, em geral descrito sob uma luz grotesca,
oblíqua, surrealista, com imagens ecoantes e uma extraordinária
combinação de realidade e irrealidade, troça e aflição: Outras são
gracejos, invenções irreverentes a que chamou "contos profanos". Além de
suas outras qualidades, Zamiatin possuía uma inesperada veia de alegria
incontida e um grande senso de humor.
A mesma riqueza e diversidade e a percepção aguda do cômico e do
grotesco animam sua peças. Muitos dos personagens são caricaturas
maravilhosas. Espírito, imaginação e, sempre, a mais meticulosa técnica
combinam-se na maior parte de sua obra com um profundo sentido histórico
e uma visão profética. Isto é particularmente verdadeiro em Nós,
uma sátira cáustica, entre outras coisas, sobre urna sociedade
esquemática — donde necessariamente totalitária — escrita em 1920-21.
Nós não foi aceita para publicação. Lida, conforme era costume à
época, numa reunião do Sindicato dos Escritores Russos, em 1923,
provocou uma nova onda de violentos ataques dos críticos e escritores do
partido.
Zamiatin escreveu este romance espantosamente profético quando mal se
discernia o totalitarismo futuro. Como todos os grandes satiristas, a
partir das tendências e indícios do presente, projetou uma visão
abrangente da sociedade futura. Seu método, conforme o definiu em Nós,
foi o reductio ad finem — um método hoje aplicado com vigoroso
efeito por mestres da sátira como William Golding (The Inheritors,
Lord of the Flies) e Anthony Burgess (The Wanting Seed, The
Clockwork Orange).
Poeta, gozador (o riso — escreveu — é a mais devastadora das armas),
lutador herético da liberdade e da independência na arte e na vida.
Zamiatin foi uni inimigo coerente de todas as idéias canônicas, toda a
coerção, todos os guardiões da "salvação compulsória". Atacou e
ridicularizou sem piedade o totalitarismo emergente, seus bajuladores
medíocres, seu reino de brutalidade, violação e destruição da liberdade
e criatividade do espírito humano. Previu tudo: o terror, as traiçoes, a
desumanização; os onipresentes guardiões; o controle do pensamento e da
ação; as constantes lavagens cerebrais produziam ou autômatos
incondicionais ou hipócritas, que mentiam para sobreviver; a exigência
de que todos cultuassern o Benfeitor, que com sua manopla literalmente "iquida",
reduz todos que discordam, todos os que apaixonadamente desejam ser eles
mesmos, a uma poça de água incolor. Previu também a sujeição das artes.
Seu herói alardeia: "Encilhamos o elemento outrora selvagem da poesia.
Hoje, a poesia deixou de ser o canto ocioso e insolente do rouxinol; a
poesia é um serviço cívico, a poesia é útil. E não só deve o povo ("números")
desse estado apocalíptico de totalitarismo ritualizado comparecer à
cerimônia de gala em que o Benfeitor extermina os heréticos, mas o poeta
é obrigado a de clamar uma ode, comemorando a sabedoria e a grande
justiça do carrasco.
Em termos de estio. Nós é também uma realização notável, pois Zamiatin
tinha gosto e ouvido perfeitos. "A linguagem de nossa época é incisiva e
breve como um código", escrevia ele em 1923. Em Nós, que é um
poema cuidadosamente estruturado, o leitor não encontrará qualquer traço
da música rica e lenta de suas estórias de província, ou da graça
maliciosa de seus "contos profanos". Nós, cujo tema é um Estado
quadrado de homem quadrados, é vazado num estilo da maior severidade e
disciplina — um estilo em perfeita harmonia com a intenção do autor, com
a sociedade totalmente controlada que ele evoca, onde a emoção foi
banida (e ainda assim sobrevive), onde cada momento é vivido de acordo
com o programa, numa cidade de casas de vidro e linhas absolutamente
retilineas, sob uma redoma de vidro, onde se faz amor em dias e horas
certas.
Mas, assim como Zamiatin foi muito mais do que um intelectual
politicamente perspicaz, também Nós, dentro da sua surpreendente
disciplina de estilo, é muito mais do que uma obra política. E uma obra
filosoficamente complexa de infinita sutileza e nuance, alusões e
reflexões. E ainda uma tragédia humana profundamente comovente, e um
estudo da variedade de emoções humanas (paixão — D-503; dominação —
I-330; ciúme — U; ternura e generosa e total entrega do ser — 0-90). E
embora as pessoas sejam "números" impessoais, não são figuras
esquemáticas; cada unia delas é um indivíduo vivo, convincente e tocante.
A principal preocupação de Zamiatin neste romance é o problema do homem
nos seus múltiplos aspectos; as relações do indivíduo com a sociedade e
com os outros homens: o conflito entre a tentadora segurança da
não-liberdade e a vontade de libertar a identidade; o medo e a atração
da alienação; a cisão entre o racional e o irracional. Nós é também o
estudo de uma sociedade que se diz baseada na racionalidade pura — e
torna-se com isso mortalmente desumana e absurda.
"Quem são eles?" pergunta o herói depois de ter visto as criaturas
meigas e peludas no exterior da Muralha que cerca o Estado Uno. "A
metade que perdemos?" A metade que sente. A metade irracional que vive
fora do programa e das linhas retas. No entanto, mesmo no Estado Uno,
onde a espontaneidade é proibida num Estado protegido por muralhas de
tudo que é desestruturado e vivo, a vida e a humanidade se afirmam O
herói — um construtor e matemático inteiramente moldado pela sociedade,
sem jamais questioná-la — possui atávicas "mãos peludas". Seduzido por
uma paixão violenta e irracional, ele faz a descoberta chocante de um
reino insuspeitado e há muito reprimido — o reino interior, da
identidade individual, do eu. "Quem sou eu?" exclama desesperado. Numa
cena extremamente tragicômica, ele consulta um medico buscando socorro
para o terrível mal. O médico declara solene que ele está gravemente
enfermo — nasceu-lhe uma alma. "É perigoso?", pergunta. "Incurável",
responde o médico. Mas, ai dele, o mal revela—se ao final curável. Os
homens do Benfeitor descobrem um remëdio para a individualidade, a
rebelião, a humanidade: uma simples operação para extirpar o foco de
toda infecção — a imaginação — e reduzir todos os cidadãos do Estado
tino a semi-idiotas sorridentes.
Nós é mais multifacetado, menos desesperador do que o 1984
de Orwell, escrito vinte e cinco anos depois e diretamente influenciado
pelo romance de Zamiatin. Apesar do final trágico.Nós trazem si uma nota
de esperança. Apesar da derrota da rebelião "ainda há lutas na zona
oeste da cidade." Muitos "números" alcançaram o exterior da Muralha. Os
que morreram, não foram destruídos como seres humanos — morreram lutando
sem se submeter. E embora o herói seja reduzido a um autômato obediente
certo de que a "Razão" e a ordem estática prevalecerão e embora a
mulher, que amou por um breve período e foi forçado a trair, morra
(assim como os poetas e rebeldes que ela liderava), a mulher que o ama,
meiga e tema, encontra-se a salvo no exterior da Muralha. Terá seu filho
em liberdade. E a própria Muralha provou-se afinal vulnerável. Foi
rompida — e certamente voltará a sê-lo.
Em Nós, diz Zamiatin: É para isto que nos encaminhamos. Paremos
enquanto é tempo. Pela poesia e pela troça, perpassa um grande carinho —
pela Rússia, pelo homem — e uma profunda tristeza pelas provações
particularmente intensas por que iriam passar no nosso século de terror,
tifo fantasticamente previstas no romance, e enfrentadas com tanta
coragem. O próprio Zamiatin, uma vítima extremada dessas provações, é
notável pela sua total falta de cinismo ou despeito. Raiva, troça,
rebelião — mas nenhuma auto-comiseração ou amargura. Ele parece dizer a
todos os dogmatistas, a todos que tentaram forçar a vida a entrar numa
forma rígida: Vocês não irão, não poderão vencer. O homem não será
destruído.
Zamiatin
classificou Nós como "a minha obra mais divertida e mais séria". E
embora fale em muitos níveis e de muitas coisas, sua mensagem política é
inconfundível. Ë um aviso e um desafio, um apelo à ação. Talvez seja a
exposição mais completa da filosofia de Zamiatin e de suas preocupações
emocionais.
E bastante significativo que a perseguição a Zamiatin tenha atingido o
auge no final da década de vinte, quando o presente tornava-se
desconfortavelmente semelhante à profecia, quando a existência do
Benfeitor e sua Máquina tornava-se reconhecível, uma realidade iminente.
Em 1929, o controle total da produção literária foi entregue a ARFP (Associação
Russa de Escritores Proletários) que se tornou um instrumento para
extirpar tudo que ainda fosse independente na literatura russa. Através
de campanhas de difamação, pressão sobre os periódicos e editores, do
apelo aos métodos policiais, a entidade procurou enquadrar todos na
linha exigida — o serviço ao partido. A AREP dedicou-se com ardor ao
papel de carrasco e os resultados não tardaram a aparecer. Muitos
periódicos e editoras foram fechados. Houve uma onda de suicídios de
escritores e poetas. As retratações adquiriram proporções epidêmicas. Um
sem-número de escritores que não pertenciam ao partido, desfibrados,
retrataram-se publicamente dos seus pecados e juntaram-se ao rebanho,
repudiando e reescrevendo suas obras.
Uma campanha particularmente insidiosa foi desfechada contra Zamiatin e
Pilnyak. Este último foi exposto à execração pública devido à publicação
no exterior do romance Mogno. Nós, escrito quase dez anos antes e
inédito na União Soviética, foi usado como pretexto imediato para a
destruição de Zamiatin. Conquanto sua primeira tradução para o inglês (em
1924) e para o Tcheco (em 1927) não provocassem qualquer reação das
autoridades soviéticas, sua publicação em 1927 no "Volya Rossii", um
jornal de emigrados impresso na Tchecoslováquia, sem o conhecimento ou a
autorização do autor, foi usada, dois anos mais tarde, como desculpa
conveniente para desencadear toda a força da pressão oficial contra o
autor. Ocaso foi discutido numa assembléia do Sindicato dos Escritores
no verão de 1929, quando Zamiatin estava ausente em viagem de férias. Um
por um dos seus colegas, amedrontados e subservientes, ergueram-se para
denunciá-lo. Zamiatin respondeu com uma carta indignada e corajosa,
pedindo demissão do Sindicato. "Acho impossível", escreveu, "pertencer a
uma
organização literária que... toma parte na perseguição de um associado."
Pilnyak foi incapaz de suportar a pressão e retratou-se. Os antigos
alunos e admiradores de Zamiatin — Ivanov, Katayev, Kaverin sacrificaram
seus talentos para se tornarem escribas, produzindo o que quer que fosse
necessário, na forma e no estilo exigidos. Os de espírito mais forte,
como Isaac Babel, emudeceram. E apenas gigantes isolados como Zamiatin e
Bulgakov recusaram a se submeter. Vedado o acesso à publicação, as peças
retiradas de cena apesar do enorme sucesso popular, os livros retirados
das livrarias e bibliotecas, eles escreveram a Stalin solicitando
permissão para deixar a Rússia. Ambos falaram da proscrição das suas
obras como de uma sentença de morte literária.
Graças à intercessão de Gorky junto à Stalin, o pedido de Zamiatin foi,
surpreendentemente, concedido. Ele abandonou a Rússia em 1931 e radicou-se
em Paris. Seus últimos anos transcorreram em grande solidão e privação.
Morreu de doença cardíaca em 1937, seu enterro foi acompanhado somente
por um punhado de amigos, pois ele não aceitara o convívio da comunidade
de emigrados. Até o fim considerou—se um escritor soviético unicamente à
espera, conforme escreveu à Stalin, "de que se torne possível em nosso
país servir às grandes idéias sem aviltar-se diante de homúnculos", até
que "haja ao menos uma mudança parcial na concepção vigente do papei do
artista literário". Ele nunca chegou a ver esse dia. Sua morte não foi
mencionada pela imprensa soviética. A exemplo do poeta rebelde de Nós, e
de muitos dos maiores poetas e escritores russos do século vinte, ele
foi literalmente 'liquidado" — reduzido à não-existência. Seu nome foi
suprimido das histórias literárias e, por muitos anos, permaneceu
desconhecido em sua terra.
E ainda assim, ele continua vivo. No dizer do seu companheiro de
infortúnio Bulgakov, "os manuscritos são incombustíveis". Ele reviveu no
Mundo Ocidental. Nós foi traduzido em mais de dez línguas. Muitas de
suas estórias, ensaios, e peças foram publicadas no exterior em russo, e
traduzidos para o inglês. Mesmo na Rússia Soviética seu nome começou a
aparecer nos últimos anos (timidamente) em um ou outro livro de memórias,
em um ou outro ensaio obscuro sobre ficção científica e literatura
utópica. Foi mesmo reincluído nas enciclopédias literárias —
naturalmente com o inevitável comentário negativo. E embora sua obra
continue a não ser vendida na Rússia Soviética, sem dúvida tem chegado
às mios de alguns leitores, escritores e acadêmicos de forma clandestina,
pois sua influencia destaca-se no pensamento de alguns rebeldes atuais
como Sinyavsky, Daniel e outros que lutam para restaurar a liberdade de
criação na literatura russa.
Como todas as grandes obras de arte, Nós presta-se a uma
multiplicidade de interpretações. Escreveram-se numerosos ensaios e
análises sobre Zamiatin (3), e sobre Nós, abordando-os de vários
pontos de vista e várias formas: como um estudo do homem moderno
divorciado do seu eu natural; como uma charada freudiana; como um mito
apresentando o dilema do homem em termos de sonhos e arquétipos; como
uma parábola religiosa de forte influência dostoyevskiana; como uma das
mais importantes anti-utopias modernas, e assim por diante. Nós é
tudo isso, e mais. É um dos grandes romances trágicos de nossos tempos.
Mas deixemos o livro falar por si. O leitor perspicaz encontrará em Nós
muito mais do que poderíamos sugerir numa introdução.
(1) Este
ensaio, assim como outros aqui citados, encontram-se em A Soviet
Heretic: Essays Eugene Zamiatin (Chicago, 1972).
(2) (N.T.) Veja The Dragon: I5 Stories por Eugene Zamiatin (New
York, 1967).
(3) (N.T.) Um ótimo estudo crítico e biográfico, de autoria de Alex M.
Shane foi publicado nos Estados Unidos em 1968 —
The Life and Works of Eugene Zamiatin (Berkeiev, 1968) constando
entre outros dados, uma excelente bibliografia.
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OPINIÃO
Nós, uma utopia negativa
Por Ella Kobiaco
O livro Nós, de Evgueny Zamiatin escrito em 192-21, muito
mais do que uma obra política, insurge como um corajoso ataque ao
totalitarismo que com suas mãos de ferro viola os direitos individuais,
subverte os valores humanos, corrompe as relações humanas, usurpa a
liberdade do livre-pensar e agir, destrói a criatividade e por assim
dizer violenta a arte em nome de idéias equivocadas sobre um suposto bem
comum.
É ainda um grito em defesa da liberdade do homem; um alerta, para um
perigo eminente: Cuidado! Querem fazer-nos acreditar na segurança da
não-liberdade.
Assim, D-503, personagem principal que escreve a história, sob o jugo de
seu condicionamento tece comentários:
“A liberdade e o crime estão tão indissoluvelmente ligados... liberdade
do ser humano igual a zero, e ele não comete crimes. Isto está claro. O
único modo de livrar o homem dos crimes é livrá-lo de sua liberdade.”
E entre outros, também:
“Por que a dança é bonita? Resposta: porque não é um movimento livre,
porque todo o sentido profundo da dança consiste justamente na absoluta
submissão estética, na não-liberdade ideal.”
E mais, D-503 afirma:
“O ideal (está claro) vai ser quando não acontecer mais nada...”
À tal afirmativa, a própria história de vida e obra de Zamiatin se opõe,
e com certeza ele se refere à revolução permanente de Trotsky quando sua
heroína, I-330, profere o seguinte discurso:
“— E que revolução é essa que você diz ser a última? Não há a última, as
revoluções são infinitas. A última é para crianças: o infinito assusta
as crianças, e é necessário que as crianças durmam tranqüilas à noite.”
Original, dono de aguçada percepção e imaginação, Zamiatin, numa
narrativa surrealista, permeada pela ironia — combinando realidade e
irrealidade, acontecimentos trágicos e rizíveis, fazendo uso de uma
linguagem contida, propositalmente disciplinada; preocupado com a
liberdade de escolha, com o querer e o criar — satiriza o contexto
histórico em que vivia e mais, antevê o futuro de si próprio e de seu
país, profetizando a desumanização, os pensamentos e as ações
programadas, a banalização das necessidades do homem, a repressão das
emoções, o extermínio dos que estão em desacordo com a ordem imposta, a
produção de autômatos, as lavagens cerebrais, a destruição daqueles que
lutam para manter vivas imaginação, alma e originalidade.
Escreve D-053:
“A minha querida O vem visitar—me amanhã, tudo será simples, correto e
limitado como um círculo. Eu não temo essa palavra — “limitado” — a
função da mais alta faculdade do homem — a razão — consiste justamente
na limitação contínua do infinito, da divisão do infinito em porções
cômodas e facilmente digeríveis...”
A Gazeta do Estado Unificado publica:
“Devereis submeter ao jugo benéfico da razão entes desconhecidos que
habitam outros planetas — talvez ainda na condição selvagem da liberdade.
Se eles não entenderem que nós lhes levamos a felicidade matematicamente
infalível, nosso dever é obrigá-los a serem felizes”.
A história em Nós, fala das causas e de como se articula e
acontece uma revolução num tempo futuro, num espaço cercado por Muros,
onde os membros da sociedade, constantemente vigiados pelos Guardiões,
habitam casas de paredes de vidro, não recebem nomes, mas números; são
obrigados a reverenciar ritualmente o Benfeitor e sua Máquina, têm
pensamentos e atitudes condicionados, executam trabalhos mecânicos, e
suas vidas particulares e sociais são programadas e controladas por um
governo autoritário, o Estado Unificado. O controle e as programações
vão mesmo até seus encontros íntimos transformados em impessoais, com
horários e locais estipulados, entre indivíduos (números) previamente
registrados.
Mas apesar da Máquina do Estado, do Muro e seus Guardiões a revolução
acontece. Alienação e pensamentos condicionados dão espaço a reflexões e
questionamentos intermináveis. As mudanças permeiam. O Muro é transposto,
para além dele, uma nova vida nasce do ventre de O-90, a amante de
D-503. As emoções sufocadas sobrevivem. A utopia é sonhada, a busca pela
felicidade permanece. E além do Muro Verde a esperança usa óculos.
Temas, situações e conceitos encontrados em Nós
(escrito em 1920-21) — aqui, numa tradução notável de Clarice Lima
Averina, a partir da primeira edição russa, de 1990 — inspiraram alguns
escritores como Aldoux Huxley em Admirável mundo novo (publicado
em 1932) e George Orwell em 1984 (publicado em 1949).
Em Nós, o herói D-503, um matemático, vive em constante conflito
por ter como ideal subjugar suas emoções e sentimentos, embasar seus
pensamentos e ações nos argumentos padronizados inculcados em sua mente
pelo Estado Unificado e contrariamente se descobre possuidor de uma
identidade individual, constatando a força de seu inconsciente nos
sonhos, tendo desejos não-programados pelo sistema, vivendo uma paixão
irrefreável, repentinamente vendo-se obedecer a impulsos irracionais e
sendo levado a acreditar e querendo acreditar estar terrivelmente doente
por possuir uma alma.
O médico faz um diagnóstico para D-503:
“ — Vai mal hein? Pelo visto, formou-se uma alma em você.
— Alma? ... É... muito perigoso? Balbuciei eu.
— Incurável.”
Ter uma alma, ter imaginação era ter uma doença incurável no Estado
Unificado, até que descobriram a cura, ou seja, uma operação de remoção
de um centro de imaginação no cérebro, tornando o indivíduo alheio à sua
individualidade, um sorridente-imbecil, completamente alienado, a mercê
do poder central.
Enquanto D-503 descreve no seu cotidiano, a natureza e a qualidade de
seus relacionamentos íntimos e sociais, emergem pouco a pouco os
problemas intestinos e sem solução do Estado Unificado, manifestam-se os
conflitos íntimos e de convivência social de cada personagem, assim como
os dele mesmo, e da aparente frieza e impessoalidade de cada um deles
sobrevém um novo contexto — resultante da combinação de sensações e
sentimentos puramente humanos — que indiferente à ordem vigente escapa
sorrateiro de seus inconscientes e cruza os semblantes, flui pelos
olhos, treme nas mãos, e brota nas bocas independentemente:
“— Escute —... e lá onde termina seu universo finito, o que há mais
além?”
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Alexandre Beluco põe na forma escrita as suas reflexões sobre Nós,
de Eugene Zamiatin
O livro Nós, de Eugene Zamiatin, é um romance antecipatório. Ele
foi escrito em 1920 e conta a estória de pessoas vivendo em um futuro em
que o governo é autoritário e em que alguém controla a vida de todos.
É antecipatório no sentido de tratar de temas recorrentes desde o início
do século passado e por um certo clima (pode-se dizer "kafkiano") que
percorreu a Europa nos anos que antecederam a Segunda Grande Guerra.
Algumas frases do livro são bastante eloqüentes, como: "Não existe uma
revolução definitiva, as revoluções devem ser infinitas. Uma revolução
final é para crianças... elas temem o infinito e é importante que durmam
tranqüilas à noite." Ou: "Não quero que alguém queira por mim. Quero
querer por mim mesma." Ou ainda: "Derrubaremos todas as paredes para
deixar a aragem renovadora soprar livremente de um extremo a outro da
Terra."
Alguns elementos de Nós inspiraram, entre outros, Aldous Huxley
em Admirável mundo novo e George Orwell em 1984. As
personagens têm horas marcadas para empreenderem esforços de procriação,
em contatos extremamente impessoais. E em 1984 ficou famoso um trecho em
que a personagem principal mantém relações sexuais com uma moça, e o faz
executando um ato político.
Em 1984 vivem mercê de um Grande Irmão, no caso de Nós um Benfeitor,
sempre presente. Em Nós os prédios são transparentes, e os moradores têm
permissão de fechar cortinas apenas durante os encontros íntimos. Em
1984 existem as telas de vídeo.
Em Nós, o governo, o Estado Uno, como o denominam, se refere aos
mortos na revolução como "números" perdidos, já que as pessoas não
recebem nomes, mas números. Os personagens principais da estória são
D-503, I-330, U, O-90.
A estória consiste em uma revolução sendo armada e deflagrada. O
cotidiano e as causas da revolução emergem facilmente da narrativa. A
personagem principal descobre-se a certa altura doente, e sua doença
consiste no nascimento de uma alma.
Mas os homens do Benfeitor descobrem uma maneira de curar essa doença,
em princípio tida como incurável. E extirpam-lhe a imaginação, a
mutilação constituindo-se em uma cura para a humanidade e para a
individualidade.
As personagens, que à primeira vista são lógicas e impessoais, talvez
pela forma como se relacionam, na verdade constituem-se em ricas
combinações de sentimentos humanos. D-503 é um matemático que não
resiste aos seus mais profundos anseios e escreve a estória à qual nos
referimos. O-90 é doce e meiga, e é o estopim para a detonação da alma
de D-503.
O final é quase folhetinesco, mas não perde seu valor por ser um
clássico. O herói é aparentemente vencido, tendo sido reduzido a um
imbecil. Mas a muralha que circunda a cidade fora vencida e sua amante,
grávida, conseguira fugir.
Ler esse livro pode parecer por vezes como assistir o filme metrópolis,
de Fritz Lang, depois de se ter assistido Blade Runner, de Ridley
Scott. Mas, mesmo um tanto envelhecido, vale pelas antecipações. É como
ouvir obras de Beethoven e seus contemporâneos e encontrar as origens de
vários elementos básicos das trilhas sonoras de hoje em dia.
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Nós, de Eugene
Zamiatin, está citado entre os 100 melhores romances do século XX. Veja
a lista:
1. Ulisses (1922) — James Joyce
2. Em Busca do Tempo Perdido (1913—27) — Marcel Proust
3. O Processo — Franz Kafka
4. Doutor Fausto (1947) — Thomas Mann
5. Grande Sertão: Veredas (1956) — Guimarães Rosa
6. O Castelo (1926) — Franz Kafka
7. A Montanha Mágica (1924) — Thomas Mann
8. O Som e a Fúria (1929) — William Faulkner
9. O Homem sem Qualidades (1930—43) — Robert Musil
10. Finnegans Wake (1939) — James Joyce
11. A Morte de Vírgilio (1945) — Hermann Broch
12. Coração das Trevas (1902) — Joseph Conrad
13. O Estrangeiro (1942) — Albert Camus
14. O Inominável (1953) — Samuel Beckett
15. Cem Anos de Solidão (1967) — Gabriel Garcia Márquez
16. Admirável Mundo Novo (1932) — Aldous Huxley
17. Mrs. Dalloway (1925) — Virgínia Woolf
18. Ao Farol (1927) — Virgínia Woolf
19. Os Embaixadores (1903) — Henry James
20. A Consciência de Zeno (1923) — Italo Svevo
21. Lolita (1958) — Vladimir Nabokov
22. Paraíso (1960) — José Lezama Lima
23. O Leopardo (1958) — Tomaso di Lampedusa
24. 1984 (1949) — George Orwell
25. A Naúsea (1938) — Jean—Paul Sartre
26. O Quarteto de Alexandria (1957—1960) — Lawrence Durrell
27. Os Moedeiros Falsos (1925) — André Gide
28. Malone Morre (1951) — Samuel Beckett
29. O Deserto de Tártaros (1940) — Dino Buzzati
30. Lord Jim (1900) — Joseph Conrad
31. Orlando (1928) — Virginia Woolf
32. A Peste (1947) — Albert Camus
33. O Grande Gatsby (1925) — Scott Fitzgerald
34. O Tambor (1959) — Günter Grass
35. Pedro Páramo (1955) — Juan Rulfo
36. Viagem ao Fim da Noite (1932) — Louis—Ferdinand Céline
37. Berlin Alexanderplatz (1929) — Alfred Döblin
38. Doutor Jivago (1957) — Boris Pasternak
39. Molloy (1951) — Samuel Beckett
40. A Condição Humana (1933) — André Malraux
41. O Jogo da Amarelinha (1963) — Julio Cortázar
42. Retrato do Artista quando Jovem (1917) — James Joyce
43. A Cidade e as Serras (1901) — Eça de Queirós
44. Aquela Confusão Louca da Via merulana (1957) — Carlo Emilio Gadda
45. As Vinhas da Ira (1939) — John Steinbeck
46. Auto de Fé (1935) — Elias Canetti
47. À Sombra do Vulcão (1947) — Malcolm Lowry
48. O Visconde Partido ao meio (1952) — Italo Calvino
49. Macunaíma (1928) — Mário de Andrade
50. O Bosque das Ilusões Perdidas (1913) — Alain Fournier
51. Morte a Crédito (1936) — Louis—Ferdinand Céline
52. O Amante de Lady Chatterley (1928) — D.H. Lawrence
53. O Século das Luzes (1962) — Alejo Carpentier
54. Uma Tragédia Americana (1925) — Theodore Dreiser
55. América (1927) — Franz Kafka
56. Fontamara (1930) — Ignazio Silone
57. Luz em Agosto (1932) — William Faulkner
58. Nostromo (1904) — Joseph Conrad
59. A Vida — Modo de Usar (1978) — Georges Perec
60. José e Seus Irmãos (1933—1943) — Thomas Mann
61. Os Thibault (1921—1940) — Roger Martin du Gard
62. Cidades Invisíveis (1972) — Italo Calvino
63. Paralelo 42 (1930) — John dos Passos
64.As memórias de Adriano (1951) — Marguerite Yourcenar
65. Passagem para a Índia (1924) — E.M. Forster
66. Trópico de Câncer (1934) — Henry Miller
67. Enquanto Agonizo (1930) — William Faulkner
68. As Asas da Pomba (1902) — Henry James
69. O Jovem Törless (1906) — Robert Musil
70. A Modificação (1957) — Michel Butor
71. A Colméia (1951) — Camilo José Cela
72. A Estrada de Flandres (1960) — Claude Simon
73. A Sangue Frio (1966) — Truman Capote
74. A Laranja mecânica (1962) — Anthony Burgess
75. O Apanhador no Campo de Centeio (1951) — J.D. Salinger
76. Cavalaria Vermelha (1926) — Isaac Babel
77. Jean Christophe (1904—12) — Romain Rolland
78. Complexo de Portnoy (1969) — Philip Roth
79. Nós (1924) — Evgueni Ivanovitch Zamiatin
80. O Ciúme (1957) — Allain Robbe—Grillet
81. O Imoralista (1902) — André Gide
82. O mestre e a Margarida (1940) — Mikhail Afanasevitch
83. O Senhor Presidente (1946) — Miguel Ángel Asturias
84. O Lobo da Estepe (1927) — Herman Hesse
85. Os Cadernos de Malte Laurids Bridge (1910) — Rainer Maria Rilke
86. Satã em Gorai (1934) — Isaac B. Singer
87. Zazie no metrô (1959) — Raymond Queneau
88. Revolução dos Bichos (1945) — George Orwell
89. O Anão (1944) — Pär Lagerkvist
90. A Tigela Dourada (1904) — Henry James
91. Santuário (1931) — William Faulkner
92. A Morte de Artemio Crus (1962) — Carlos Fuentes
93. Don Segundo Sombra (1926) — Ricardo Güiraldes
94. A Invenção de Morel (1940) — Adolfo Bioy Casares
95. Absalão, Absalão (1936) — William Faulkner
96. Fogo Pálido (1962) — Vladimir Nabokov
97. Herzog (1964) — Saul Bellow
98. Memorial do Convento (1982) — José Saramago
99. Judeus sem Dinheiro (1930) — Michael Gold
100. Os Cus de Judas (1980) — Antonio Lobo Antunes
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