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O romance do café
Beatriz Garcia


No tempo do café: São Paulo e Rio de Janeiro



BEATRIZ GARCIA

Entrevista com a Autora

Quem é Beatriz Garcia?

Beatriz Garcia: Nasci numa propriedade rural no município de Cajuru, interior de São Paulo. Fiz História na USP, na célebre Maria Antônia nos anos 60, e Estudos sociais na Faculdade Barão de Mauá, em Ribeirão Preto, anos mais tarde. Fui professora de História Geral e do Brasil, e participei do trabalho de recuperação do acervo da E. E. 2º grau Otoniel Mota, antigo" Gymnásio do Estado", em Ribeirão Preto. A partir de meados dos anos 80, dediquei-me ao estudo do ciclo do café no Brasil, e desses estudos resultaram os livros O Romance do Café e Uma História de Amor Entre Guerras, com o qual ganhei o prêmio literário instituído pela Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto, em 1985.

O Romance do Café é o resultado de intensas pesquisas sobre a cafeicultura e se desenrola no Vale do Paraíba, tanto no lado fluminense quanto no lado paulista, e de todo atual Estado de São Paulo, no período que vai do século XIX até a metade do século XX, passando também pelo problema agrário no Brasil. Esses anos de estudo sedimentaram-me o respeito e a crença em valores da vida agrária, como solidariedade, amor ao chão que nascemos, camaradagem e vida comunitária. Lições do passado que procuro resgatar.

O que você espera com este romance?

Beatriz Garcia - Pretendo mostrar as grandes transformações que ocorrem no Brasil com a chegada dessa planta itinerante, que entrou no país pelo Pará e acabou se tornando um marco na nossa vida econômica, social e cultural, a ponto do período ser denominado "civilização do café". Ele é a cara do Brasil, faz parte da personalidade brasileira. É um dos principais signos de nossa identidade nacional. O café não só marcou o perfil do Brasil para sempre, mas também acabou determinando a urbanização e criou um modelo agrário que permanece, e um modelo de trabalhador rural que poderá ser reaproveitado e reestruturado. Acredito que esse modelo de trabalhador é mais saudável do que o bóia-fria de hoje, em geral recrutado no meio urbano. Creio ser fundamental que o Brasil rural se reorganize.
Procurei mostrar as transformações que ocorreram no mundo rural de hoje ocasionadas pelas leis trabalhistas de 1962, os governos militares, o neo-liberalismo, a globalização etc. São fatores que aliados concorreram para o êxodo rural aumentando ainda mais nossas dificuldades.



214 pp. - R$ 43,00
ISBN 85-295-0010-5
Cod. barras: 9 788529 500102


A estrutura da vida rural brasileira foi abalada, pois grande parte dos fazendeiros de médio e de pequeno portes não conseguiram sobrepujá-las.

Na região do vale do Rio Paraíba (Rio de Janeiro e São Paulo), onde outrora desenvolveram grandes propriedades rurais com solares suntuosos auferidos pelos lucros do café no século XIX -, fazendeiros atuais com nova mentalidade e compreensão da cultura brasileira adaptaram suas propriedades a uma nova atividade econômica: o turismo rural.

Por todo o vale do Rio Paraíba surgiram hotéis - fazenda, originários das antigas sedes rurais inteiramente restauradas e adaptadas ao conforto moderno, pessoas apaixonadas por esta época da civilização brasileira se hospedam nestas belas sedes rurais, acabando por sentir o espírito da época.

Na região de Campinas, Araras, Limeira, São Carlos, fazendas históricas abrem suas portas ao turismo nacional e internacional.

Em Piracicaba e Sorocaba, são belas as sedes rurais restauradas e dinamizadas para um turismo equilibrado.

No nordeste de São Paulo - Batatais, Franca, Cajuru, Altinópolis existem artísticos solares do período cafeicultor, muitos tornaram-se hotéis.

Quase na fronteira entre Minas Gerais e São Paulo, a cidade de Mococa permanece com o seu centro histórico de arquitetura cafézista e fazendas com solares cujas portas estão sempre abertas para os que amam a cultura brasileira, amplamente difundida pelas agências de turismo.

Ribeirão Preto foi centro cafeicultor, mas atualmente sua principal atividade econômica gira em torno da cana de açúcar.

Num raio de 200 quilômetros da cidade estão 80% da produção de cana do Estado, 45% da produção nacional e 10% dos canaviais existentes no mundo.
Difícil é conviver com ar saturado de fagulhas negras que escurecem o céu azul de Ribeirão Preto.

Esta cidade segue o caminho do mundo. Ela é acima de tudo um centro urbano dinâmico, capitalista, moderno e altamente poluído pela "atmosfera do canavial".


Porque este ciclo econômico foi tão importante dentro da história da civilização brasileira?

Beatriz Garcia: Beatriz Garcia - É impossível estudar a história da civilização brasileira passando sobre este período, pois esta fase marcou o caráter da nossa história, na sua vida econômica, social, política e cultural etc.
Os exemplos estão a nossa frente nos belos solares rurais e urbanos das regiões abordadas neste livro.

Impossível ignorar o drama da escravidão nas fazendas de café, mas também, reconhecer o reflexo da sua cultura na vida brasileira.
Procurei repensar a fase no que tange, a importância da imigração européia o seu legado incorporado a nossa cultura.

Triste perceber nos dias que ocorrem as fazendas vazias, despovoadas, solitárias e reconhecer que as cidades estão transbordando de pessoas, grande parte desempregadas, ou com salários ínfimos.

Notamos em ambas, as misérias do país ao lado das verdades escondidas nos dramas que assustam o nosso cotidiano e a sensação de solidão que freqüentemente nos acompanha na ânsia de nos defender de um capitalismo impiedoso.

É difícil a situação do país, daí a necessidade de compreendermos o embasamento histórico do problema que a originou num passado não muito distante ligado a necessidade do grande desenvolvimento, do progresso a todo custo, do neo-liberalismo etc.


O progresso

Beatriz Garcia - O que é o progresso? Qual o seu verdadeiro sentido?
O progresso seria então o grande desenvolvimento tecnológico e cientifico?
Não seria melhor defini-lo como a soma do crescimento tecnológico e humano?
O desenvolvimento conseguiu aumentar o limite da vida cronológica do homem, mas não foi vinculado a sua vida espiritual, pois a solidão das almas é a pior de todos os males.

A terra chora porque a exploração desenfreadas das suas riquezas chegou ao limite, a manipulação dos fenômenos naturais, a desmistificação das formas de vida. Tudo está virando um grande "negócio".

Não existe solução rápida sobre estes desafios à nossa frente, a não ser sob novos paradigmas, de como viver a vida e para reverter este quadro teremos de começar pelo centro das grandes decisões nacionais. Elas estão no interior brasileiro. No Planalto Central.


Por que o livro encerra com a era Vargas?

Beatriz Garcia - Porque marca o fim de uma fase da história brasileira e o prenúncio de um novo período - o da industrialização brasileira amparada pelo governo Vargas. Apesar do país continuar sendo tipicamente rural. Nas décadas de 1940 e 1950 vivi em uma propriedade rural de porte médio altamente produtiva - uma agroindústria - cultivava produtos de substância, além do algodão, café, mamona, cana de açúcar, etc. O engenho fabricava a rapadura e aguardente. Era produtora de leite e indústria artesanal de queijo, requeijão, manteiga etc.

Nasci e cresci nesta propriedade rural. Fui batizada na capela ao lado das crianças filhas de empregados. Aos 6 anos, ingressei na escola rural até esta idade usufrui de uma vida de brinquedos e pequenas tarefas caseiras. O meu mundo era a roça.
Era uma vida bem diferente das crianças das grandes cidades, cujos pais as colocam bem cedo nas escolinhas, as vezes com menos de dois anos de idade, pelo excesso de tarefas e falta de tempo comum nos dias de hoje.

Assim, pois, inicia-se uma vida terrível dos pais para sustentáa-los desde os tenros anos de vida até as faculdades com despesas fabulosas, pois as escolas são empresas e custam muito caro quase sempre elas ocupam o vazio deixado pelas escolas do governo.


Como resolver o problema do campo?

Beatriz Garcia - É óbvio que se tem que falar sobre esse assunto, que é apaixonante, porque o problema fundiário no Brasil é de grande turbulência. Nele, estão envolvidos os que possuem terras e os que não as possuem, o governo e a imensa burocracia da reforma agrária. O Brasil tem seu destino ligado a terra. Nosso País poderá ser celeiro do mundo, já que tem condições para isso, sem desmontar o que foi construído nos anos que sucederam a revolução de 1930. É necessário que se invente uma política agrícola consistente. É preciso que se reorganize, urgentemente a nossa agricultura.

É inviável atê-la à lógica do mercado.

Com a promulgação das leis trabalhistas para o campo, grande parte dos fazendeiros descapitalizados por anos a fio de uma política econômica avessa à agricultura, recorreram então a força temporária de trabalhadores rurais recrutados nas cidades, aumentando ainda mais o êxodo rural com o desaparecimento das roças familiares. Mecanizaram suas fazendas e as transformaram em empresas altamente produtivas, já que a, ordem apóia os poderosos e destrói a agricultura familiar e policultura.
Houve a desintegração da cultura caipira e reincorporada pelo entretenimento de massa, pela mídia ansiosa pelos espetáculos do show business, pelos peões caubóis, pelos espetáculos televisivos.- A banalização da cultura! Tristes são esses tempos...


Quais as técnicas que você empregou para elaborar o Romance do Café?

Beatriz Garcia - Pesquisas de campo, pois eu fiz várias viagens, entrevistas com proprietários rurais, descendentes da aristocracia cafeeira, com trabalhadores rurais, li livros de história da civilização brasileira dos séculos XIX e XX, pesquisei em revistas e jornais... e além disso tenho as minhas referências, a minha experiência como filha de fazendeiro, que vi de perto o drama da terra. Para você ter uma idéia da grande quantidade de pesquisas, levei dez anos para escrever este livro.

Apesar de passados todos esses anos, continuo fiel as idéias que defendi nesse livro. Acredito ser esta a minha verdade e a lego como contribuição à procura de um mundo melhor.



Quarta capa

O romance do café de Beatriz Garcia, resultado de um trabalho que durou dez anos, é um livro histórico-literário, que aborda a origem, a evolução da cafeicultura no Vale do Paraíba fluminense e paulista, na Depressão Periférica, no Nordeste Paulistano e no Planalto Ocidental, Estado de São Paulo. Analiza a importância econômica e sociocultural do ciclo dessa planta, que sacudiu a estrutura da sociedade brasileira no limiar do século XIX até os primeiros anos da Era Vargas, quando na conturbada vida nacional ocorreram o processo de estatização da economia brasileira e a crise agricola, com a decadência da rubiácea, assim como o fenômeno que se repete: a queda do preço da terra.

Apaixonada pela terra, Beatriz Garcia enverda pelos caminhos da geografia e do ecossistema das regiões abordadas antes do período cafeicultor, para em seguida abordar o conteúdo sócio-econômico, chegando à conclusão de que a agricultura monocultora, como a do café, voltada para o comércio exterior, traz como conseqüência grandes dificuldades para o País, que - segundo a Autora - necesita de "uma gricultura diversificada, voltada para o mercado interno e externo, com o homem assentado à terra, com uma agricultura viável, pois a terra não vale apenas pelo dinheiro, mas, muito mais, pelo que produz. Afinal, terra é sempre terra!"

Este livro, o segundo lançamento de Beatriz Garcia, apresenta consistente bibliografia sobre o período cafeeiro. Seu primeiro livro - Uma história de amor entre guerras - recebeu o prêmio literário da Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto.

A Editora Alfa-Omega - coerente com seus 32 anos de luta por um Brasil mais reflexivo - sente-se honrada ao lançar este livro que se tornará imprescindível na biblioteca de quem se preocupa com as questões brasileiras.


Sobre a Autora


Beatriz Garcia é professora e historiadora formada pela USP. Nasceu em uma propriedade rural no município de Cajuru, São Paulo.

Marcou sua presença como professora de História e no trabalho de recuperação do acervo da E. E. 2º Grau Otoniel Mota, antigo Gymnasio do Estado, em Ribeirão Preto.

A partir de meados da decada de 1980 tem se dedicado ao estudo do ciclo do café no Brasil, originado os livros O romance do café e Uma história de amor entre guerras (prêmio literário instituído pela Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto, ano de 1995).

O romance do café é o resultado de intensas pesquisas sobre a fase e se desenrola no Rio de Janeiro e São Paulo de meados do século XIX até a metade do século XX - ao lado dos grandes contrastes da luta pela terra no Brasil e cuja leitura nos fornece a compreensão da situação aflitiva no campo e nos permite desvendar, através dele, o final e também o começo de um novo tempo.



Tábua da matéria

Sobre a autora, VII
Agradecimentos, IX
Dedicatória, XI
Introdução, XIII


Capítulo I
O vale do Rio Paraíba, 17

Capítulo II
A depressão periférica, 68

Capítulo III
O nordeste paulistano, 107

Capítulo IV
O planalto ocidental, 173

Capítulo V
A crise de 1929 e a Revolução de 1930, 182

Dez anos após, 191

Bibliografia, 203



Bibliografia

ABREU, Capristano de. "Capítulos da História Colonial (1500-1800)". Livraria Briguet, 1954.
ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de. "Pequena História da Formação Social Brasileira". Monsato Grâfica Ltda.
ALMANACK, de Franca. 1902 - Contendo várias e úteis informações, principalmente sobre o município e cidade de Franca. Organizado por M. Franco.
ALMEIDA, Aluísio. "Caminhos ou Estradas" e "Migrações". Revista Mensal do Departamento de Investigações de São Paulo.
AMARAL, Luis. "História da Agricultura no Brasil" - II Volume. Ed. Nacional, 1958.
ANTONIL, André João. "Cultura e Opulência do Brasil". (Texto confrontado com a ed. de 1711). Edições Melhoramentos em Convênio com o Instituto Nacional do Livro, 1976.
ARAÚJO, José Ribeiro. "O café em São Paulo". Boletim Paulista de Geografia.
ARAÚJO, José Ribeiro. "O Café, Riqueza Paulista". Revista de Geografia.
ARAÚJO, José Ribeiro. "Santos, o Porto do Café". Instituto Brasileiro de Geografia. Rio de Janeiro, 1969.
AMOROSO NETO, João. "Dioguinho". História completa verídica do famoso bandido Diogo da Rocha Figueira, mais conhecido pelo nome de Dioguinho por um delegado de polícia. Of. Gráfica, 1949.
"Aspectos Históricos da Câmara Municipal de Ribeirão Preto". Edição Comemorativa da Edilidade Ribeirãopretana no seu primeiro centenário - 1874-1974.
BARDI, P.M. "Pintura, Arquitetura e outras Artes". Editora Melhoramentos, São Paulo, 1975.
BARROS, Alberto M. "Moitas de Guaxuma". Revisão do Prof. J.P.Miranda. Ed. Vermelhinho. Ribeirão Preto.
BARROS, Gilberto Leite de. "A Cidade e o Planalto". Processo de Dominância da cidade de São Paulo. Tomo II. Artes Gráficas Bisordi S.A. 1967.
BARROS, José Martins. "Autobiografia". Ed. N. Abrams New York, Guanabara Koogan S.A., Rio de Janeiro.
BARROS, Maria Paes de. "No tempo de Dantes", Ed. Paz e Terra,1998.
BASTIDE, Roger. "Brasil, Terra de Contraste". 2. edição, 1964.
BASTOS, Adãlia D. Junqueira. "Ondas e Tradições da Família Junqueira - 1816-1966". Editora Hucitec, 1980.
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