Salto no escuro relata os horrores da Segunda Guerra Mundial, vivido por um dos seus participantes, o partigiani e membro da resistência italiana, Luigi Sarcinella.
"É, sem dúvida, um dos melhores romances sobre a Segunda Guerra Mundial" na opinião de José Américo de Almeida, da Academia Brasileira de Letras.
Entrevista com o Autor
Sr. Luigi, qual a razão principal dos relatos contidos em Salto no Escuro?
Colocar em evidência os horrores e a loucura da guerra, uma bestialidade.
É sabido que o regime nazi-fascista praticou crimes horrorosos contra a humanidade. O senhor como participante partigiani acha que todos os responsáveis foram punidos?
Não. Não todos. Soube-se depois da fuga de muitos guardiões torturadores que se salvaram no anonimato e na América Latina. Alguns foram capturados.
Qual é o legado da luta dos partigianos contra o regime nazi-fascista?
A liberdade na democracia.
O romance Salto no Escuro é assumidamente autobiográfico. O que levou a escrevê-lo há 40 anos atras e a reeditá-lo agora?
Sempre senti a necessidade de escrever um livro útil à sociedade.
O senhor acha que a luta contra o nazismo e o fascismo está na ordem do dia?
Nazismo e fascismo, ou qualquer sórdida ditadura devem ser eliminadas pelo bem da humanidade. Ditadura é sinônimo de regresso em qualquer senso.
Em que medida os relatos contidos em Salto no Escuro podem sensibilizar e conscientizar os jovens de hoje?
O livro foi escrito no intuito de transmitir aos jovens os males que a guerra encerra no bojo de qualquer ditadura. A guerra por si só encerra erros inomináveis.
Vê-se pelos relatos contidos em Salto no Escuro que o senhor possui uma vasta cultura humanista. Onde adquiriu-a?
O liceu clássico e o diploma de professor formaram a base da minha cultura, depois completada no planetário de São Paulo com o diploma de cosmografia sendo professor, Aristóteles Orsini. Também conseguí fazer um curso de antropologia e pré-história na USP tendo como professor o célebre Paulo Duarte. O curso de jornalismo foi completado na Cásper Líbero. Mas toda a minha cultura em geral provém dos inúmeros livros que tenho lido até hoje e assim continuarei enquanto viver.
Tendo o senhor vivido os horrores da guerra como militante partigiani, acha que ela é fielmente retratada nos inúmeros filmes que se fizeram e se fazem sobre o assunto?
Os filmes, mesmo os bons e os mais fiéis não retratam a realidade porque não transmitem totalmente os tormentos da guerra: barulho infernal, ensurdecedor, fedores intoleráveis de cadáveres, fome, frio, piolhos, vilezas, humilhações e tudo aquilo que pode degradar um ser humano.
A humanidade ainda corre o risco de uma outra guerra mundial?
Não creio, mas se por uma imensa infelicidade acontecesse, acabaria com a vida no planeta e seria o fim trágico, indescritível da humanidade. O perigo consiste na probabilidade de que as armas destruidoras acabem nas mãos de ditadores deficientes.
Salto no Escuro nos mostra que na guerra não há vencidos nem vencedores, mas há heróis que defendem uma boa justa causa. Como o senhor se sente tendo lutado contra o nazi-fascismo. O senhor venceu a guerra?
Não, só lutei pela liberdade contra ditaduras hediondas com a consciência de servir à humanidade, tendo a certeza que ninguém seria vencedor tendo participado de massacres, o que é um desabono para todos aqueles que foram forçados a participar.
Poderia lembrar-se de nomes de companheiros seus que tiveram destaque na vida política italiana do pós-guerra?
Lembro-me dos principais, apesar de que não possa lembrar os nomes de todos os companheiros na luta da Resistência contra a ditadura. Posso lembrar dos comandantes: Maggiorino Marcellim, major dos alpinos e comandante dos partisans rebeldes no Val Chisone. O vice-comandante juiz de Pinerolo, Ettore Serafino. O coronel Tullio Giordana, diretor do Diário de Torino. O Presidente Scalfaro e o meu amigo e Presidente atual Mário Azeglio Ciampi. O Senador Paulo Taviani e tantos outros companheiros que morreram ao meu lado combatendo ou foram fuzilados, torturados, queimados vivos ou afogados. Só no Val Chisone tivemos medalhas de ouro, de prata e de bronze que documentam o valor e o heroísmo dos partisans italianos que pertenciam a todas as armas do Exército, da Marinha, da Aviação como também dos Carabinieris e da Alfândega.
376 pp. - R$ 73,00
ISBN 85-295-0055-5
Código de barras: 9 788529 500553
Sobre o Autor
Luigi Maria Sarcinella (Lecce-Itália - 1920-) é um homem que vem trazer ao público toda a experiência que a história do mundo lhe possibilitou. E esse gesto ele concretiza por meio da escrita.
Na obra deste autor podemos vê-lo, ainda jovem, combatente nas frentes da Grécia e da Iugoslávia, depois, preso num lager nazista e, evadido, lutando na Resistência, por fim, um soldado rebelde na Segunda Guerra Mundial. Anos depois ei-lo no Brasil (1946): um homem olhando para esta terra — quão diferente da que ficou para trás! Quer conhecer o novo país e fica sabendo de repente que os próprios brasileiros não conhecem este gigante. Sem dúvida, urge embrenhar nas matas, percorrer sertão adentro, para descobrir o Brasil e revelá-lo em sua inteireza.
Numa tentativa de embasar-se para a empreitada, estuda jornalismo, cosmografia, antropologia e pré-história.
Como resultado de sua vivência, escreve este Salto no escuro, já na 5.a edição, um libelo contra a guerra e Quase além da fantasia, ficção científica fundamentada na astronomia, genética e robótica.
O gigante brasileiro, agora em 3.a edição, é sua obra maior, um retrato do Brasil: a história, a geografia e a gente.
Contudo esses livros são apenas uma parte de sua realização ao longo da vida. O importante mesmo é a esperança que ele vem infundindo com a sua atuação.
Quarta capa
Passaram-se vinte anos* desde quando o último canhão emudeceu e o pano baixou sobre o palco gigantesco da Terra, dando assim por acabado o último ato da desmedida tragédia da Segunda Guerra Mundial.
O fim desse espetáculo sinistro, cuja última cena fora apocalíptica, foi visto por todos os homens, que eram, ao mesmo tempo, assistentes e atores do drama que havia destroçado o mundo.
Quase parafraseando às avessas um dos principais atores, é preciso dizer que nunca tantos sofreram e morreram por causa de tão poucos. Não há lembrança pior na história da humanidade, de que a fúria coletiva tenha chegado ao ápice do paroxismo, a ponto de escrever, a tinta de sangue, uma página da sua absurda história bélica, como se fosse o compêndio de uma gigantesca enciclopédia de sacrificados.
Dois fatores, entretanto, foram os principais causadores do desastre: o egoísmo colonialista e o nacionalismo fanático. É este um binômio feito de tabus, de deficiências que, postas numa proveta de qualquer laboratório patriótico, dão infalivelmente, como resultado, um híbrido monstro, feito de hipócrita malvadez e de celerada velhacaria.
Nunca o verme do ódio misantropo rastejou de forma tão falsa. Ele chegou a deformar as mentes, ofuscando-as com a névoa sanguinária do assassinato, tanto que, no meio do massacre generalizado, vislumbrou o refinamento degradante de um calculado genocídio.
Agora o tempo abrandou os ânimos e, ao passo que a memória bóia na neblina do esquecimento, os acontecimentos de outrora assumem na lembrança as características dos quadros de tintas desbotadas, confundindo os fatos e atenuando assim falsamente as recordações da catástrofe que deixou a humanidade pasmada à beira do abismo. * Refere-se ao período compreendido entre o término da Segunda Guerra Mundial (fins de 1945) e a redação deste livro (1966).
Epígrafe
Enquanto viver me sustentará o orgulho de ter combatido o nazismo assassino, ladrão, ateu e racista.
O autor
Frente e verso da carteira do autor como membro do
Corpo Volontari della libertá.
Verso da carteira funcional do autor
(com pseudônimo de Giovanni Altavilla) como “funcionário” da Fiat.
Prólogo
Poca favilla gran fiamma seconda.(1)
Dante, Paraíso, 1 - 34
Passaram-se vinte anos desde quando o último canhão emudeceu e o pano baixou sobre o palco gigantesco da Terra, dando assim por acabado o último ato da imane tragédia da Segunda Guerra Mundial.
O fim desse espetáculo sinistro, cuja última cena fora apocalíptica, foi visto por todos os homens, que eram, ao mesmo tempo, assistentes e atores do drama que havia destroçado o mundo.
Quase parafraseando às avessas um dos principais atores, é preciso dizer que nunca tantos sofreram e morreram por causa de tão poucos. Não há lembrança pior na história da humanidade, de que a fúria coletiva tenha chegado ao ápice do paroxismo, a ponto de escrever, a tinta de sangue, uma página da sua absurda história bélica, como se fosse o compêndio de uma gigantesca enciclopédia de sacrificados.
Dois fatores, entretanto, foram os principais causadores do desastre: o egoísmo colonialista e o nacionalismo fanático. É este um binômio feito de tabus, de deficiências que, postas numa proveta de qualquer laboratório patriótico, dão infalivelmente, como resultado, um híbrido monstro, feito de hipócrita malvadez e de celerada velhacaria.
Nunca o verme do ódio misantropo rastejou de forma tão falsa. Ele chegou a deformar as mentes, ofuscando-as com a névoa sanguinária do assassinato, tanto que, no meio do massacre generalizado, vislumbrou o refinamento degradante de um calculado genocídio.
Agora o tempo abrandou os ânimos e, ao passo que a memória bóia na neblina do esquecimento, os acontecimentos de outrora assumem na lembrança as características dos quadros de tintas desbotadas, confundindo os fatos e atenuando assim falsamente as recordações da catástrofe que deixou a humanidade pasmada à beira do abismo.
Hoje, no tempo em que muitos protagonistas da cruenta tragédia desapareceram e os que sobraram estão amadurecidos pela experiência da vida, toma-se necessário rememorar os fatos, a fim de que os nossos filhos não repitam os erros e para que o sacrifício dos que morreram sirva ao menos como exemplo, pondo em evidência a quase inutilidade do seu holocausto.
Milhões de pessoas de todas as idades, centenas de milhares de famílias, tiveram os seus lares destruídos e enlutados em nome da Pátria, da Bandeira e até mesmo de Deus, a serviço deste belo trinômio que sempre serviu para encobrir os famélicos interesses de baixos indivíduos altamente colocados.
Porém, com a explosão de Hiroxima, os heroísmos ficaram pulverizados; o velho conceito de combate foi posto de lado e toda a estratégia tática ou bélica, então usada, passou a ser obsoleta.
Desde aquele momento o homem ficou duvidoso, perplexo nos seus desígnios, posto que foi diante da encruzilhada de um dilema cuja solução lhe era imprescindível, porque punha em jogo a sua existência.
Hoje uma nuvem negra, monstruosa, em forma de cogumelo mortal, composta de átomos desenfreados e letais, paira no horizonte do mundo, como um íncubo, ofuscando as idéias e, com elas, o sol da esperança.
Eis porque este livro é como um grito de alarma dos que viram de perto as calamidades de uma catástrofe que, se se repetir, desintegrará o mundo e com ele o que foi feito de belo e de bom pela humanidade.
Este livro não foi escrito para satisfazer um grupo ou quem quer que seja. É um livro de alerta, uma espécie de S.O.S. simbólico, lançado pela consciência no espaço sereno da compreensão dos homens que, geralmente, se esquecem que uma pequena chama pode provocar um arrasador incêndio.
Neste livro estão expostos os acontecimentos de maior relevo, vividos por um, entre tantos, que a guerra imposta por poucos e não desejada pela maioria tinha transformado em um ator secundário do drama, um comparsa irrelevante e que, sem ser um herói, tinha sido atormentado e até humilhado, sofrendo todas as conseqüências e os efeitos, desde o prólogo até o epílogo, sem poder entender, na maioria das vezes, por que se encontrava sobre um palco caótico, onde se desenrolava tão grande e cruenta tragédia.
A princípio ficou indeciso, não entendendo bem o que se passava; ficou tonto; depois, sentiu-se cair parafusando, como se tivesse dado um salto no escuro, sem contudo chegar a tocar o chão. Enfim, quando começou a ver e entender, ficou horrorizado, atônito, diante da estupidez da malvadeza humana.
O autor
(1) Uma fagulha pode provocar um grande incêndio.
Introdução
...A camioneta avançava aos solavancos, sobre a estrada esburacada que de Brindisi leva a Lecce, estrada esta que, tripartindo-se ali, como se fora a pata de uma ave, declina a Este até a histórica Otranto, continua reta, no centro, até o extremo oriental ponto do calcanhar da Itália, diluindo-se na bela Santa Maria de Leuca, e a terceira parte, derivando a Sudoeste, acaba na cativante cidade de Gallipoli. (1)
A província de Lecce é a extremidade mais oriental da Itália.
A terra está por todos os lados abraçada pelo mar, como num eterno amplexo amoroso: ao Leste o azul Adriático e ao poente o verde Jônico. É uma zona isolada, quase tórrida no verão, suave no inverno, onde porém se sentem mesclados no ar a salsugem do mar, o aroma das laranjeiras, o cheiro dos pinheirais, o perfume dos oleandros e os vapores embriagantes dos mostos. Mas, juntamente com os perfumes da natureza, respira-se um ar sadio de história, de intelectualismo. Ali, há séculos, chocaram-se as diferentes civilizações provindas da Grécia, de Roma e de todas as latitudes. Depois, com o passar dos séculos, as invasões e as incursões acabaram e o “Tallone” (2) ficou realmente isolado na história pela natureza.
Então, o povo que ali vive apurou-se, fez-se mais homogêneo, adquiriu características marcantes, espiritualizou-se, conservando porém a força e a beleza dos romanos, a cultura dos gregos, a paixão dos árabes e o espírito empreendedor dos cruzados e dos normandos. Deste coquetel racial, linguístico e religioso, surgiu um povo altamente civilizado, o povo de Lecce, onde das diferentes nobrezas nasceu um amálgama de elites. Ali, fala-se o mais belo italiano e o povo veste-se com tamanha elegância que é difícil distinguir, à primeira vista, um plebeu de um fidalgo.
Porém, desde 1860, quando Garibaldi entrou com os “Mille”, em Nápoles, Lecce, que era feudo dos Bourbons, passou a servir os Reis da Itália, sem, porem, receber nada em troca. Somente no tempo do fascismo teve dois benefícios, e, a bem da verdade, bem grandes: a erradicação da malária e o aqueduto Pugliese.
Todos os que por ali passaram, desde os ilírios, os ulissidi e os seus ramais, os japigi e os messápios (3), desde Pirro, o descendente do mítico Aquiles, até as tropas da oitava armada britânica, deixaram os seus monumentos, as suas pegadas, de modo que, em Lecce particular-mente, se pode ler a história, diretamente ou pelo avesso, desde cerca de 3.000 anos para cá, quase ao vivo. Não é pois extraordinário o fato de se encontrarem ali monumentos árabes, barrocos, gregos, hispânicos, renascentistas e romanos. Também, quem conhece o fundo do mar, que cinge a península, sabe que se podem ler as páginas da história do lugar, debaixo d’água. Em redor daquele pedaço de terra que se parece com uma ferradura marcada pelos pregos das torres sarracenas, o mar está semeado de vestígios históricos, dê ânforas e vasos gregos e romanos — de colunas dóricas, iônicas e coríntias — de âncoras e marcas dos esqueletos de carenas cartaginesas e bizantinas. Nas grotas, inchadas pelo fôlego do mar, se vêem as linhas milenárias da geologia, enquanto as rochas guardam cemitérios romanos e messápios, que zelam os lacrimais e as oferendas votivas dos antenatos. Quase no centro geográfico da província, na cidade de Calimera (4) fundada no 6o século por colonos gregos, fala-se ainda o romaico ou grego moderno.
A nossa história, porém, é mais recente. Liga-se a um abafado dia de agosto de 1945, quando a guerra, há pouco acabada, deixara as suas marcas hediondas e indeléveis na carne viva da velha e querida Europa. Uma destas marcas, se bem que secundárias, eram os buracos e as dobras da estrada sobre a qual a vacilante camioneta avançava. Sobre o veículo que agora prosseguia, vagarosamente, porque estava entrando no perímetro urbano de Lecce, viam-se sete homens acotovelados, cuja idade variava entre 25 e 30 anos, mas, vistos assim, pareciam mais velhos. Apesar das aparências, eram eles sete homens afortunados, porque voltavam da guerra — se não completamente sãos — salvos, pois uma sorte benigna lhes havia permitido rever, safando-os do cataclismo, as próprias famílias. Aqueles sete rapazes, se não representavam presumivelmente uma elite, podiam ser considerados uma plêiade de felizardos, pelo simples fato de voltarem para casa, pois os acontecimentos que tinham vivido eram tantos pesadelos que, por assim dizer, tinham sazonado as suas vidas até o ponto crítico da existência, ponto este que, se tivesse tido maior duração, dificilmente, naquele momento, estariam olhando embevecidos os lugares conhecidos desde a infância, como quem alcança uma meta que em muitos dos casos havia parecido, mais do que uma probabilidade, uma utopia.
Eles voltavam dos mais remotos e diferentes lugares da Europa. Um deles era maneta; tinha perdido meio braço em combate nos Bálcãs, na Iugoslávia, dois anos antes, quando o fatídico 8 de setembro de 1943 o surpreendera, como aos outros, no tempo em que Badoglio havia declarado sibilinamente o fim da guerra, por parte da Itália, ordenando todos os soldados o abandono das armas antiquadas. (5)
Agora, aquele moço olhava com serenidade a estreita paisagem, limitada pelas paredes que davam corpo à rua que percorriam, antegozando intimamente o prazer de que, daí a pouco, estaria na sua casa.
Outro moço ao lado, aparentemente o mais jovem do grupo, estava ausente de casa menos tempo que todos: três anos. Era moreno, forte, troncudo e com um queixo quadrado que fazia transparecer uma grande força de vontade. Todavia estava taciturno e olhava em redor com o único olho que lhe sobrava, enquanto com uma das mãos aprumava a venda que lhe cobria a órbita oca que naquele rosto moreno produzia mais o efeito de uma brilhante condecoração. Na Rússia, na Ucrânia, perto de Kiew, em Poltovo, tinha deixado o seu olho direito, e ninguém na sua cidade o teria reconhecido, por causa daquela venda preta de moderno pirata, visto que há apenas três anos era ainda quase um menino.
Ao lado dele, um moço ruivo, aparentemente intacto, estava sentado sobre o fundo assoalhado do carro, com um braço apoiado à borda da carroçaria, mas sabia-se que um dos sapatões que calçava encobria os restos disformes de um pé destroçado.
Virado de costas para todos, de joelhos, numa estranha postura, como se estivesse rezando, encostado de frente no respaldo da camioneta, outro moço, tipicamente latino, moreno e barbudo, olhava atentamente as casas e as pessoas, animado da secreta esperança de divisar um conhecido. A barba, uma barba quase artificial, mal ocultava uma longa ferida sobre a face esquerda, que se parecia, estranhamente, mais a uma fenda provocada pela erosão num terreno. Aquela cicatriz ia desde o zigoma até a mandíbula, fazendo que o seu olho esquerdo ficasse anormalmente dilatado e o lábio superior repuxado, formando um ricto que dava ao rosto um ar de selvageria que a serenidade da pose e o seu falar tranqüilo desmentiam. Havia lutado em muitas frentes e agora estava ali, de joelhos, esperando o fim da viagem, que se daria no interior da província.
Outros dois moços estavam dormindo sentados, ou fingiam dormir, com os queixos caídos sobre o peito, mal embalados pelos trambolhões da camioneta, indiferentes a tudo, esperando também o fim da viagem. Haviam falado pouco; um deles gaguejava e o outro se dizia afetado de amnésia, mas pesava sobre eles a suspeita de que fossem “Republiquinos” (6) de Saló. Eram os únicos vestidos a paisana e na longa viagem de Nápoles a Lecce tinham-se conservado em um obstinado silêncio, feito talvez de medo ou de desconfiança, temerosos de que lhes acontecesse algo bem no fim da venturosa caminhada. De vez em quando, olhavam com receio o último componente do grupo heterogêneo do qual faziam parte. Este estava de pé, encostado à cabina e parecia ser o chefe daqueles moços desajustados. Sobre a farda de oficial dos alpinos, que trajava, sobressaía o distintivo dos “partigiani”.
Olhava diante de si, como se estivesse vendo uma miragem. Bem no fim da rua, o obelisco de Ferdinando II quase emoldurado pela famosa “Porta Napoli” erigida aos tempos de Carlos V. À esquerda o campo esportivo, à direita, a igreja de São Luigi. Ali ele havia sido batizado e era a mesma onde, quando coroinha, o famoso Tito Schipa cantava.
Agora a camioneta avançava segura em direção ao centro da cidade. À esquerda deparava-se com a gigantesca mole do belo palácio renascentista, sede da prefeitura, e ao lado a fabulosa igreja de Santa Croce, uma jóia do estilo barroco. Em frente via-se o tradicional Hotel Pátria. Oh! o Município! O “Círculo Citadino” — o Bar Giancane. Meu Deus, a belíssima praça Santo Oronzo com a Coluna encimada pelo Santo! O Cin-Cin Bar — o Bar Buda — o Bar Alvino — obrigado, meu Deus! Estava tudo ali. Tudo e intacto. Até o anfiteatro greco-romano, que datava do século II d.C. (7) Mais adiante o Castelo Anjuvino — o cine-teatro Politeama — a caserna! Dali tinha saído num ensolarado e frio dia de fevereiro do longínquo ano de 1940 e agora ali voltava, e, apesar do longo lapso de tempo, parecia ter sido ontem. No meio daqueles cinco anos, no entanto, estava interposto, como uma cunha, no seu ânimo, o terrível parêntese da guerra que representava tantos fatos, sustos, misérias, heroísmo e horrores, tantos.
Foi despertado do transe hipnótico em que se encontrava, olhando embevecido a “sua” cidade, pela parada súbita do velho carro, que estremecendo emitiu um barulho que parecia mais o estertor de um animal ferido que descansa, do que o ronco de uma velha máquina que parava.
— Chegamos, afinal! bradou o chofer.
Aquelas simples palavras surtiram um efeito mágico. Todos pularam à terra, e quando Gino pisou o solo da sua cidade natal, no mesmo ponto em que cinco anos antes tinha partido, teve a sensação de ser um astronauta, felizardo, que voltava ileso e incrédulo a Terra, provindo de um estranho planeta.
(1) Gallipoli — bonita cidade, de origem grega. A cidade exibe vários monumentos e obras de arte. A Fontana é o monumento grego mais antigo existente na Itália.
(2) Calcanhar da “bota” da Itália.
(3) Messápia — terra entre dois mares.
(4) Calimera — em grego: bom dia.
(5) É histórico e notório o fato que a Itália participou quase sem recursos na guerra, supondo que o conflito durasse seis meses, no máximo.
(6) Forma depreciativa de republicano fascista.
(7) Erigido nos tempos de Adriano no segundo século d.C.
Sumário
Sobre o Autor, VII
Prólogo, 11
Introdução, 15
Capítulo I
UM DOS TANTOS, 21
Capítulo II
ADEUS ÀS ILUSÕES, 27
Capítulo III
A GUERRA, 61
Capítulo IV
GUERRA NOS BÁLCÃS, 65
Capítulo V
OS PRISIONEIROS, 131
Capítulo VI
OS PARTIGIANI, 225
Capítulo VII
A VOLTA, 339
Capítulo VIII
O ÍDOLO QUEBRADO, 367
Repercussões críticas, 374